Jesuína

Volto ao bairro do Jardim Paulista. O Jardim Paulista baixo, para ser mais preciso.“Baixo” porque existe o Jardim Paulista alto que situa-se, claro, mais alto. Não é dificil de encontrar: em alguma altura da BR 101, já perto do municipio do Paulista, em Pernambuco, dobra-se à direita, no caminho do “Veneza Water Park”. Mais adiante um trevo exibe as escolhas: em frente o caminho das águas, à esquerda o centro da cidade do Paulista e, à direita, o Jardim Paulista alto. Era para la que desejava ir, mas estacionei o carro embaixo, pois queria ainda tomar duas cervejas na “Fava da Mainha” antes de repetir o caminho de cinco anos atrás. Caminho que havia feito dezenas de vezes em minha vida, mas que desejava repetir, pois queria lembrar do último. O caminho de Jesuína.

Jesuína era crente. Daquelas que só saiam de casa de saia, saia quase justa, blusas com mangas e com o decote discretíssimo; que saiam de casa apenas para a escola, para a igreja ou para fazer algum mandado de casa. As crentes eram o objeto de desejo preferencial dos meninos e rapazes do Jardim Paulista. Ninguém pensava duas vezes: entre a crente e a bela a preferência era sempre pela crente. As crentes eram as mais cobiçadas. O decote que era proibido, as mangas das blusas que só elas assim usavam, a saia justa abaixo do joelho – a saia! - justa! - abaixo do joelho! - tudo isso as tornavam imbatíveis. Imbatíveis no imaginário erótico dos jovens do Jardim Paulista. Não havia regras, mas acredito que se começava a olhar de verdade para as meninas quando elas tinham de treze a catorze anos. Antes era só de safadeza, era só de mentirinha.

Mas com Jesuína foi diferente, pois comecei a olhá-la quando mal ela havia completado onze anos. Mas o olhar era diferente também. Não era apenas o olhar das ”conversas de safadeza”, havia algo diferente, eu sentia a diferença. Eu passei assim a perseguir Jesuina. Perseguir não, é muito, acompanhar apenas. E sempre de longe: os mandados de casa, a escola, a igreja, os finais de semana torturosos que eu não sabia para onde ela e a família iam, etc. Eu procurava saber de tudo sobre Jesuina, e nunca falava a ninguem, nem a ela, nem em casa, nem aos meus amigos. Jesuina era minha. Apenas minha. Uma ficção minha que existia, ou uma moça que existia e que eu ficcionava. Não sei ainda hoje o que é o amor, mas seja o que seja tem de ser próximo ao que sentia por Jesuina naquela época.

Subi em direção ao Jardim Paulista alto. O objetivo era simples, apenas alcançar a segunda rua à direita e, na esquina, atrás da árvore, esperar Jesuina passar. Repetir o último caminho. A pista eu conhecia bem: a esquerda uma floresta nativa, na qual ainda é possível colher os ingás e as macaíbas. Em frente: Mirueira, Santa Casa, Alto da Bondade, Caixa d’água, etc. Continuando em frente chega-se em Beberibe.

Ela sabia que eu sempre estava ali a esperar por ela, ali atrás da árvore. Dias? Meses? Anos? Nunca contei. Passou a ser uma obrigação minha, nas quintas depois do culto, o culto era lá embaixo, e que ela nunca deixava de participar. O tempo passava e eu jamais deixei de, no meu canto atrás da árvore, esperar Jesuína passar. E ela e o tempo passavam e eu nada dizia e eu nada fazia. E ela sabia.

Eu a vi chegando. Sempre a via chegando. No inicio com colegas. Bem depois sozinha. Mas sempre abraçada á Bíblia. Criei um dia coragem. Hoje ou nunca, poderia ter dito. Puxei-a rápido para a árvore. Um grande medo Jesuína teve, e não saberia dizer se falso ou verdadeiro. De todo modo o possível medo dela não foi maior que a coragem minha de abordá-la. Pois planejava essa abordagem a tempos. Foi muita a coragem necessária.

Jesuína estava estatelada na minha frente. Na minha frente quero dizer, eu a abraçava fortemente contra o meu corpo, mas ela de costas para mim. Um tempão ficamos assim. Insinuações muito discretas declaravam um ao outro a conivencia e o encantamento. O silencio total. A escuridão. A vontade e o prazer que não se permitiam explodir. O silencio foi quebrado por Jesuina. Ela falou, repetindo o que dissera quando a puxei para a árvore: “Não conta para ninguém não.” “Conto não”, respondi. Ato continuo subi a saia dela e a pressionei mais contra meu corpo. Ouvi de novo: “Não conta para ninguém não.” Jesuína agarrada à Bíblia, eu a puxava contra mim, e ela pressionava a Bíblia contra si, e eu sentia dois mil anos de pecados contra mim. Continuamos na mesmo posição, um tempão, mas me vi depois com o sexo desnudo, e retirei de Jesuina a sua última coberta íntima. Mas escutei novamente: “Não conta para ninguém não.” Eu estava nas últimas e, na mesma posição, segurava Jesuina pressionando suas pernas contra meu sexo, enquanto acariciava o dela. Ouvi mais vezes: “Não conta para ninguém não.” Um estremecimento mútuo, e senti a urina quente de Jesuina misturada com a prova de meu prazer. Jesuína correu de mim rápida, mas voltou-se ainda para dizer. “Não conta para ninguém não.”

Depois dessa noite deixei o Jardim Paulista. Eu jamais contei a ninguém. Não sei o que foi feito de Jesuína.

Um amigo e o cointreau

Um amigo meu, já falecido, teve seus quinze minutos, que cada um de nós merece, segundo Andy Warhol, de uma forma inusitada. Ele me contava a história, orgulhoso, toda a vez que me visitava. Modesto em suas finanças, em sua vida e em sua formação escolar, contava de um jantar que o chefe teria oferecido aos empregados e às suas esposas. Ao final, depois de muitas cervejas, segundo ele, a esposa já reclamava de seu comportamento na frente do chefe. O que é que o chefe iria pensar dele? Na hora do café o chefe perguntou se alguém desejava mais alguma coisa. O amigo respondeu: um cointreau. Ninguém sabia o que era, ninguém havia provado ainda, só o amigo. Ele sentiu-se um herói perante a esposa. E a pessoa mais feliz do mundo.

 
 

O banheiro e as feministas I

Eu começarei a acreditar no discurso das feministas quando elas começarem a levantar a tampa da bacia, após o uso.

 
 

Nerize Paiva

Intelectual de província recifense é aquele que passou a adolescência embaixo das saias de Nerize Paiva, e quando adulto fica repetindo que nunca houve mulher igual à Gilda.

 
 

Workalkoholic

O Presidente Lula, nos seus poucos momentos de domínio do inglês, poderia dizer: “O que me falta para ser um workalkoholic é o work.”

Devolvi a Medida do Bonfim

Devolvi

Devolvi
O cordão e a medalha de ouro
E tudo que ele me presenteou
Devolvi suas cartas amorosas
E as juras mentirosas
Com que ele me enganou

Devolvi
A aliança e também seu retrato
Para não ver seu sorriso
No silêncio
Do meu quarto

Nada quis guardar como lembrança
Pra não aumentar meu padecer
Devolvi tudo
Só não pude devolver
A saudade cruciante
Que amargura meu viver

 

 

 

http://br.youtube.com/watch?v=g5qq7wSf2I0

 

 

Trocando em miúdos

Eu vou lhe dar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde

http://br.youtube.com/watch?v=hn4JyodL7K4

 

 

Devolvi é de 1960, letra e música de Adelino Moreira. Foi o samba canção carro chefe do LP de estréia de Núbia Lafayette, lançada pelo próprio Adelino como um Nelson Gonçalves de saias. Trocando em miúdos é de 1978, música de Francis Hime e letra de Chico Buarque. As duas canções foram exaustivamente tocadas nos rádios e louvadas em suas épocas.

Núbia e Chico são referencias hoje na música brasileira. Os dois possuem uma obra realizada, ela como intérprete, ele como compositor e intérprete. Isto já mostra uma diferença de época. No tempo de Núbia a regra era o compositor compor e o cantor cantar, na de Chico as duas figuras fundiam-se em uma só.

Entre Devolvi e Trocando em miúdos transcorreram dezoito anos. Tempo suficiente para se assistir a Bossa Nova surgir, ver o Brasil campeão do mundo em futebol e a caminho do bi e do tri, amargar o início da ditadura em 64 e a sua institucionalização em dezembro de 68 e, paradoxalmente, curtir tudo o que culturalmente vinha do maio de 68. Havia também o milagre econômico. Mas as duas letras com as suas respectivas músicas parecem falar mais das diferenças entre as duas épocas. Elas falam de dois brasis em duas épocas. Ou apenas de duas épocas?

 

 

 
 

A mãe e a cadela

R. tem dezessete anos. É de classe média, a mãe é artista plástica e o pai é comerciante. Os pais são separados, desde quando ele tinha doze anos. Ele mora com a mãe em um pequeno sítio na cidade de Paulista, em Pernambuco. No sítio, R. e a mãe cuidam de um canil e a venda dos filhotes de raça acrescenta uma renda a mais na família. R. é branco, podia passar por louro, e é alto, bem mais alto que a média de seus colegas do sítio e da própria cidade de Paulista.

R. mal havia completado catorze anos quando ocorreu o incidente. Cara de menino que ainda hoje tem, aos catorze, a cara batia de fato com a idade. Menos até, ele parecia ser um menino de no máximo doze anos de idade. A altura de R., menino, garoto ou adolescente, sempre foi acima da média. O incidente: R. engravidou a namorada.

Em qualquer família isso é um problema. Não seria diferente com a família de R. De modo que ele pensou várias vezes, e relutou várias vezes antes de comunicar aos pais. E ainda mais com os pais separados, uma complicação a mais. Os pais compreenderam, quando afinal reuniram-se para ouvir o “grande problema” que atormentava o filho. Para surpresa de R., acostumado que já estava com as vezes que eles nem se compreendiam, nem compreendiam os filhos. Os filhos sim, R. tinha uma irmão mais velho. A compreensão significou: a surpresa, a forte reprimenda, a cobrança de que ele conhecia – “eu mesmo falei várias vezes da importância do sexo seguro”, dizia a mãe - os instrumentos para evitar gravidez precoce ou indesejada e para evitar as doenças sexualmente transmissíveis, etc. Os pais então souberam mais ainda: a namorada não era namorada, mas uma garota que o filho encontrara em um pagode na praça principal do Jardim Paulista Baixo; que a garota não era propriamente uma garota, mas já uma mulher de seus vinte e nove anos de idade; que era de família humilde. Compreender não significa necessariamente aceitar. De modo que veio a pergunta inevitável: o que fazer, agora? Mais reprimendas para R., mas agora já com atenuações e indicações de aceitação: “aceitar o que Deus quis”, “podia ser pior”, “que pelo menos a criança nasça com saúde”, “que você aprenda agora”, etc.

R. chegou em casa chorando. Na sala sentou-se e, aos prantos, mal podia contar à mãe o que afinal havia ocorrido. “Ela não quer o menino. Ela disse que vai abortar. Que não ia estragar a vida dela por conta do menino.” “Mas, mãe”, continuou R., “eu quero o menino, eu não quero que ele morra, eu posso cuidar dele, não é justo que o matem, isso devia ser proibido. Ajude-me, mãe.” A mãe, claro, não iria, pelo menos nesse primeiro momento de desespero adolescente, deixar de atender. Mas não foi difícil para a mãe, e para o pai depois, condenar o aborto e aceitar a gravidez. Pois, aborto, por diversas razões, mas cada uma delas para cada um dos pais, sempre foi algo proibitivo. Os pais, o pai já integrado nas novas, decidiram lutar com o filho e  a favor do futuro neto. O que fazer agora?

As notícias não eram animadoras. Mesmo depois de vários dias, de várias idas e vindas, das garantias de que os pais – dele – sustentariam o menino, a mãe continuava irresoluta: “não quero o menino”. Assim, o filho continuava triste. Os pais, que eram contra o aborto sim, mas não tanto a fim de entrar contra a mãe, contra a namorada do filho. O problema era a insistência do filho em preservar o rebento que ele ainda não conhecia, em insistir que não aceitava que, em um toque talvez dramático, “matassem o menino.” Os pais entenderam ou aceitaram. De todo modo a tristeza daquele garoto, antes eternamente sorriso, os levou a mãe. Não foi fácil a conversa, pois, como se falou depois: “aí é que ela cresceu”. Mas, “crescer” significa passar a exigir, como se usava a expressão. Foi necessária a brutalidade legal: “ou você tem o menino ou entramos com uma ação penal contra você.”, disseram os pais. Claro, ele era um garoto, ela já era uma mulher. Fácil de ganhar, fácil de levá-la a prisão. O argumento ad baculum funcionou.

Uma pequena festa particular, no sítio da mãe, com a presença do pai. O que se comemorava? O neto? Seria porque seria o primeiro neto dos dois pais? Não, eles ainda não sabiam o que era ser avô, ou avó, apenas comemoravam a alegria do filho. O filho voltara a sorrir. Foi o pai que perguntou: “Meu filho, impressionante seu espírito de paternidade. Como você o adquiriu?” A mãe, o irmão, mais um casal em visita, ficaram calados com a resposta.

“Pai, mãe, eu não tenho espírito de paternidade, eu não sei o que é ser pai. Eu tenho espírito de maternidade. Foram quatro anos assistindo e ajudando os partos das nossas cadelas. Eu conheço os sofrimentos e as alegrias das cadelas quando elas têm seus filhotes. Quando elas perdem um da ninhada, eu perco com elas. Por que ia ser diferente com meu filho?”

 
 

De Anderson

Aqui se faz, aqui se paga.

 
 

De Gerson

Entrou na chuva é pra se molhar.

Quem tem medo de escuro não sai de noite.

 
 

O Brasil, o escrivão e o juiz

As semanas pré-carnavalescas do Recife/Olinda são tão boas quanto o próprio carnaval. Há quem as prefira. Brinca-se antes e refugia-se nas praias durante. Foi o que pensaram dois irmãos jovens. Jovens mas nem tanto, pois um já era juiz de direito e o outro um pequeno empresário.

Marcaram de se encontrar as oito lá na Bodega do Véio, uma mercearia do alto de Olinda que fica, para quem vem dos quatro cantos, à direita na subida que leva ao largo do Amparo. Uma mercearia cuja grande atração é não ter atração alguma, isto é, ela é simplesmente uma mercearia. Mas que encantou e encanta a todos que lá vão. Aqueles que lá vão para comprar apenas o pão nosso de cada dia, que ela nunca deixou faltar, e aqueles que lá vão atrás daquilo que ela nunca pensou em oferecer, e que eles parecem encontrar. O quê não se sabe. A frente da Bodega enche de pessoas, todas elas a beberem, a conversarem, a se olharem. Essa é a festa. Essa é a atração.

Já são onze horas da noite e, como se diz, amanhã é dia de branco. Mas dá para tomar a saideira, disse um deles, a famosa saideira. Tomaram o carro, que haviam estacionado no Carmo, embaixo do alto de Olinda, e dirigiram-se para, bem pertinho dali, a praia dos Milagres, para um dos bares daquela série que começa na Ilha do Maruim, na praia de Punta Del Chifre, mais ao Sul e que se alastra até os Milagres, mais ao Norte. Nada mais perigoso. A qualquer hora do dia. Às duas da manhã e embriagados e nos Milagres o que esperavam os dois jovens? O óbvio aconteceu: entraram em confusão ou fabricaram confusão.

Estavam já trancafiados. Na Delegacia do Varadouro, quase em frente do bar da arruaça. São duas e trinta da manhã e o escrivão sonolento, todos deveriam estar sonolentos às duas e trinta da manhã, escrevia o depoimento dos dois jovens, registrava a ocorrência. O primeiro foi o jovem juiz. Nome? E a Remington gastava um bom tempo não billgatesiano para registrar. CPF? RG? Endereço? Profissão? “Juiz de direito”, respondeu o jovem já curado de seus excessos etílicos.

Os dedos do escrivão ficaram suspensos no ar, a Remington, passiva, esperando uma atitude. O escrivão degustava o que acabara de ouvir: juiz de direito. Essa a profissão do encarcerado. O mundo estava mesmo mudado, pensou ele, pois nunca em sua vida de vinte anos de escrivão havia testemunhado tamanho descompasso entre o ilícito e a profissão. Ligou de pronto para o delegado de plantão que não estava de plantão, não teve coragem de escrever tal profissão.

-Doutor, acabei de prender um juiz.

-O quê? Um juiz? De futebol?

-Não. Juiz mesmo, juiz de direito. Ele está preso na cela.

“Faça o seguinte, meu amor”, disse o delegado ironizando; e continuou “pegue a chave da cela que está aí na sua mesa, abra a cela, solte o juiz, se tranque, jogue a chave fora e quando eu chegar pensarei no seu caso.”

Os dois amigos agradeceram ao escrivão e foram dormir. Eram quatro horas da manhã.

Direito constitucional

Os frequentadores - professores, funcionários e estudantes - do prédio do CFCH da UFPE (quinze andares) foram surpreendidos com a colocação de redes metálicas de proteção em cada uma das varandas dos quinze andares. A medida, justifica-se, pretende eliminar os casos de pessoas suicidas que se atiram dos andares mais altos. Não me importo nem muito com a agressão estética da medida tomada, mas muito mesmo com a perda de meu direito constitucional de ir e não vir.

 
 

Tres dedos

Pedimos a colaboração dos nossos seis leitores para uma tarefa cidadã: trazer para o blog exemplos de "frases ergonomicamente cretinas".  Tarefa urgente que, com certeza (meu Deus), resgatará a cidadania de todos nós. Um primeiro exemplo, acredito imbatível:

Apontamos o dedo e não percebemos que tem três mais apontados para nós.

Clodovil, a última Geni

A Geni todo mundo sabe quem é: “ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um”, e todo mundo “joga pedra na Geni, joga pedra na Geni”. Antes da palavra “gay” entrar no mercado, os homossexuais brasileiros - os “frangos”, os “viados” - eram a Geni preferida de pobres e ricos. Lá no Rio a Madame Satã, aqui no Recife a Lolita, passavam nas ruas a desafiar a ordem, a moral dominante e os bons costumes; e nem sempre incólumes. Muitas vezes enfrentavam e botavam para correr policiais, que, sem reforços, tinham de fugir mesmo.

No Recife ficaram famosos os shows de Lolita nas escadas da antiga Escola de Engenharia na rua do Hospício. A cantar números de Angela Maria - à pergunta do refrão da música “será que eu sou feia?”, ouvia a resposta em coro da estudantada ”não é não senhor” - expunha-se como uma Geni às pedras, nem sempre metafóricas, da turba que gritava, ria, assobiava, empurrava, e arriscava, os mais valentes, a dedada que podia custar caro à saúde. O show acabava com a polícia que chegava batendo. Lolita fugia ou ia preso, mas a cidade ficava saciada e, como na música de Chico, podia manter zelosamente seus armários abarrotados.

Os homosexuais da televisão brasileira sempre tiveram a proteção das Genis que expondo-se de forma exagerada e histriônica atraíam para si todas as pedras possiveis. E nenhum exerceu esse papel com mais vigor e talento que Clodovil. Na época em que a estrela maior da alta costura brasileira, Denner Pamplona de Abreu, escondia a sua flagrante e por todos conhecida homossexualidade em um casamento conto de fadas com uma socialite famosa, Clodovil brandia a sua condição em todas as revistas, em todas as telas, em todos os lares.

Clodovil tornou-se uma celebridade, na sua profissão de estilista da moda, na televisão em todos os programas que participou, e na Câmara, como um dos deputados mais votados da história. A irreverencia, o tom debochado, o seu programa de entrevistas “lente da verdade” que passava a idéia de “sempre dizer a verdade”, foram os pontos destacados nas dezenas de homenagens recebidas (Ruy Castro, Reinaldo Azevedo, Barbara Gancia, Carlos Heitor Cony, entre outros). Mas nada do Clodovil gay.

Clodovil foi uma Geni para os gays durante muito tempo, mas foi a última. Hoje em dia não há mais necessidade de Genis. Os gays já possuem, como se diz, cidadania. Paradoxalmente Clodovil é um reacionário da chamada causa gay, e não é à toa que ele é odiado pelos seus líderes. Perguntado pela Veja a razão de não ter apresentado como deputado nenhum projeto de defesa dos homossexuais, respondeu: “Deus me livre. Quais direitos? Direito de promover passeata gay? Não tenho orgulho de transar com homem. O primeiro homem que vi transando com outro foi meu pai – era o meu tio, irmão da minha mãe. Eu tinha 13 anos.”

Miles Davis sempre fez chiste de Louis Armstrong. Reclamava de suas caretas e risos fartos usados, segundo ele, para agradar os brancos e rebaixar-se a eles. Mas Louis Armstrong com as suas caretas abriu bem mais caminhos para o negro jazzista americano que as inúmeras brigas de Miles com os brancos. Armstrong é que possibilitou Miles. Talvez seja o mesmo com Clodovil. Os grupos gays brasileiros cheios de causas e causas a defender devem mais do que pensam a Clodovil. A última Geni.

 
 

Profundo como um pires

 

Na repaginação do blog criamos a categoria "Profundo como um pires". A idéia é colecionar frases que são, digamos assim, profundas como um pires. Essas frases não são para serem confundidas com os nossos maravilhosos provérbios populares, com as frases de pára-choque de caminhão ou com as piadas que circulam oral e livremente pelo Brasil. A maioria politicamente incorreta. As que coleciono são frases populares, mas não porque sejam cunhadas por populares, mas porque destinam-se ao "povo", à "educação do povo". Elas são escritas ou produzidas por escritores famosos, por intelectuais, por educadores, por aqueles que, enfim, acreditam, ajudar ao próximo a libertar-se de algum tipo de opressão e encontrar o caminho da libertação. São manuais de auto-ajuda.

Os autores que colaboram com a idéia são muitos. E procuro contemplar a todos, mas os nossos queridos Paulos são imbatíveis na produção. Daí, e apenas por isso, o privilégio deles na escolha das frases. A meia dúzia de leitores do blog está convidada a fornecer frases que nos auto-ajudem nessa nossa vida de opressão. Não esqueçam o lema de todos os manuais de auto-ajuda que, como Içami Tiba, vendem aos milhares: ajuda-te a mim mesmo!

Fazendo jus ao privilégio, mais frases de Paulo Freire. Observem apenas: a primeira é uma bobagem ideológica, a segunda é filosofia mal entendida e a terceira é um erro multidisciplinar.

Paulo Freire

  • 1. Educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que pouco sabem - por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais - em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais.
  • 2. O mundo não é, o mundo está sendo.
  • 3. A leitura do mundo precede a leitura da palavra.

 
 

Xatima Kintas

 

Acordo antes da manhã. É bom chegar antes. Senti apenas falta do sol fustigando minhas faces. Abro a janela e permito às lufadas frias da manhã que ainda não chegara invadir a alcova. Mas elas invadem também a minha alma. E o pegnoir que respondia esvoaçante ao clamor da manhã vacilante me faz olhar para o meu corpo. Vejo que também possuo um corpo. No espelho admiro-o, gosto dele. Por que a minha alma inquieta e triste não se acomoda nesse corpo belo? Não, não cederei aos desvarios cartesianos. Faço rápida a ablução matinal e dirijo-me para a rua, decidida a acordar o sol. Não sem antes sorrir - diria ironicamente - para os heideggers, espalhados no chão ao lado da cama, que teimavam em nadificar o nada que se tornara a minha existência. Já na rua corro célere e feliz para o mar. A alameda de araucárias - não são araucárias? Que pena! -protege a minha tez indefesa que pressente o fustigar bravio do sol a nascer. Corro mais ainda ao chegar à praia. Não permito que o vazio da alma, que as dúvidas existenciais contaminem aquele encontro primevo entre o ser e a natureza. Sinto o farfalhar da respiração ofegante. Corro mais ainda. A água do mar beija meus pés, e a sinto na boca. O sal da terra. O sal do mar. Corpo e alma. Sorrio com a união. Sinto como a filosofia é vã para os anseios que explodem de mim para fora. Paro lassa e me deixo cair ao lado de uma jangada. Breves brumas chegavam com as ondas que pediam para banhar meus pés. O corpo extenuado parecia combinar com o vazio da alma que voltava.

Devo ter dormido bastante. O sol não era mais criança. Apanho o pegnoir que dormia ali ao meu lado. Nua, pegnoir na mão, admiro o horizonte. Estou feliz. Sou feliz. O vazio da alma esvaiu-se. Corpo e alma fizeram as pazes. Olho para o lado e vejo um pescador bruto. Ele sorriu para mim. O seu sorriso me disse tudo.

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