Crônicas

Devolvi a Medida do Bonfim

Devolvi

Devolvi
O cordão e a medalha de ouro
E tudo que ele me presenteou
Devolvi suas cartas amorosas
E as juras mentirosas
Com que ele me enganou

Devolvi
A aliança e também seu retrato
Para não ver seu sorriso
No silêncio
Do meu quarto

Nada quis guardar como lembrança
Pra não aumentar meu padecer
Devolvi tudo
Só não pude devolver
A saudade cruciante
Que amargura meu viver

 

 

 

http://br.youtube.com/watch?v=g5qq7wSf2I0

 

 

Trocando em miúdos

Eu vou lhe dar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde

http://br.youtube.com/watch?v=hn4JyodL7K4

 

 

Devolvi é de 1960, letra e música de Adelino Moreira. Foi o samba canção carro chefe do LP de estréia de Núbia Lafayette, lançada pelo próprio Adelino como um Nelson Gonçalves de saias. Trocando em miúdos é de 1978, música de Francis Hime e letra de Chico Buarque. As duas canções foram exaustivamente tocadas nos rádios e louvadas em suas épocas.

Núbia e Chico são referencias hoje na música brasileira. Os dois possuem uma obra realizada, ela como intérprete, ele como compositor e intérprete. Isto já mostra uma diferença de época. No tempo de Núbia a regra era o compositor compor e o cantor cantar, na de Chico as duas figuras fundiam-se em uma só.

Entre Devolvi e Trocando em miúdos transcorreram dezoito anos. Tempo suficiente para se assistir a Bossa Nova surgir, ver o Brasil campeão do mundo em futebol e a caminho do bi e do tri, amargar o início da ditadura em 64 e a sua institucionalização em dezembro de 68 e, paradoxalmente, curtir tudo o que culturalmente vinha do maio de 68. Havia também o milagre econômico. Mas as duas letras com as suas respectivas músicas parecem falar mais das diferenças entre as duas épocas. Elas falam de dois brasis em duas épocas. Ou apenas de duas épocas?

 

 

Clodovil, a última Geni

A Geni todo mundo sabe quem é: “ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um”, e todo mundo “joga pedra na Geni, joga pedra na Geni”. Antes da palavra “gay” entrar no mercado, os homossexuais brasileiros - os “frangos”, os “viados” - eram a Geni preferida de pobres e ricos. Lá no Rio a Madame Satã, aqui no Recife a Lolita, passavam nas ruas a desafiar a ordem, a moral dominante e os bons costumes; e nem sempre incólumes. Muitas vezes enfrentavam e botavam para correr policiais, que, sem reforços, tinham de fugir mesmo.

No Recife ficaram famosos os shows de Lolita nas escadas da antiga Escola de Engenharia na rua do Hospício. A cantar números de Angela Maria - à pergunta do refrão da música “será que eu sou feia?”, ouvia a resposta em coro da estudantada ”não é não senhor” - expunha-se como uma Geni às pedras, nem sempre metafóricas, da turba que gritava, ria, assobiava, empurrava, e arriscava, os mais valentes, a dedada que podia custar caro à saúde. O show acabava com a polícia que chegava batendo. Lolita fugia ou ia preso, mas a cidade ficava saciada e, como na música de Chico, podia manter zelosamente seus armários abarrotados.

Os homosexuais da televisão brasileira sempre tiveram a proteção das Genis que expondo-se de forma exagerada e histriônica atraíam para si todas as pedras possiveis. E nenhum exerceu esse papel com mais vigor e talento que Clodovil. Na época em que a estrela maior da alta costura brasileira, Denner Pamplona de Abreu, escondia a sua flagrante e por todos conhecida homossexualidade em um casamento conto de fadas com uma socialite famosa, Clodovil brandia a sua condição em todas as revistas, em todas as telas, em todos os lares.

Clodovil tornou-se uma celebridade, na sua profissão de estilista da moda, na televisão em todos os programas que participou, e na Câmara, como um dos deputados mais votados da história. A irreverencia, o tom debochado, o seu programa de entrevistas “lente da verdade” que passava a idéia de “sempre dizer a verdade”, foram os pontos destacados nas dezenas de homenagens recebidas (Ruy Castro, Reinaldo Azevedo, Barbara Gancia, Carlos Heitor Cony, entre outros). Mas nada do Clodovil gay.

Clodovil foi uma Geni para os gays durante muito tempo, mas foi a última. Hoje em dia não há mais necessidade de Genis. Os gays já possuem, como se diz, cidadania. Paradoxalmente Clodovil é um reacionário da chamada causa gay, e não é à toa que ele é odiado pelos seus líderes. Perguntado pela Veja a razão de não ter apresentado como deputado nenhum projeto de defesa dos homossexuais, respondeu: “Deus me livre. Quais direitos? Direito de promover passeata gay? Não tenho orgulho de transar com homem. O primeiro homem que vi transando com outro foi meu pai – era o meu tio, irmão da minha mãe. Eu tinha 13 anos.”

Miles Davis sempre fez chiste de Louis Armstrong. Reclamava de suas caretas e risos fartos usados, segundo ele, para agradar os brancos e rebaixar-se a eles. Mas Louis Armstrong com as suas caretas abriu bem mais caminhos para o negro jazzista americano que as inúmeras brigas de Miles com os brancos. Armstrong é que possibilitou Miles. Talvez seja o mesmo com Clodovil. Os grupos gays brasileiros cheios de causas e causas a defender devem mais do que pensam a Clodovil. A última Geni.

 
 

A fala e a escrita

Ano Novo, Vida Nova! E com regras novas, pelo menos as da gramática. Um acordo ortográfico entre os países falantes da língua portuguesa, que são oito países com 210 milhões de falantes e que fazem da língua portuguesa a quinta língua mais falada do mundo, estabelece a unificação da escrita portuguesa a partir de agora no início de 2009.

Isso é bom ou ruim? As opiniões lidas no ar (na Internet) variam. Mas a maioria delas, tanto as favoráveis quanto aquelas contra a reforma, padecem de um mesmo erro: confundem linguagem falada com linguagem escrita. O exemplo maior é o da revista Veja, que talvez por um excesso de condescendência com o nosso povo, se pergunta em uma reportagem sobre as reformas se "as mudanças serão apenas gráficas ou vão alterar a pronúncia? " A resposta precisa ser óbvia, caso contrário estaríamos sob o jugo extrapolado da "novilíngua" do já danoso politicamente correto.

Essa é a minha segunda reforma. Tanto essa quanto a primeira, a de 71, não mudam a minha incapacidade de esgrimir as regras da boa gramática. Mas não defendo algo como um laissez faire gramático-lingüístico, a identidade (tem de ser gramatical) lingüística é essencial e exatamente pelas razões pragmáticas apontadas pelos defensores da reforma: a inserção dos países de língua portuguesa no mercado mundial.

Falaremos todos como até agora falamos, perdoando todos os que falam "menas" por não terem sido expostos a forma "padrão" de falar, e condenando os que, apesar das chances, continuam a falar "menas".

Mas o que mais gostei da reforma é ver de volta as exiladas "k", "y" e "w". Voltaram triunfantes sob proteção legislativa. E elas não são apenas exiladas, são minorias. Se demonstrarem, à moda de hoje, que sofreram danos profissionais irreversíveis, como sofreram Lula, Cony e Ziraldo, terão a bolsa ditadura para o resto da vida.

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