Clodovil, a última Geni
A Geni todo mundo sabe quem é: “ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um”, e todo mundo “joga pedra na Geni, joga pedra na Geni”. Antes da palavra “gay” entrar no mercado, os homossexuais brasileiros - os “frangos”, os “viados” - eram a Geni preferida de pobres e ricos. Lá no Rio a Madame Satã, aqui no Recife a Lolita, passavam nas ruas a desafiar a ordem, a moral dominante e os bons costumes; e nem sempre incólumes. Muitas vezes enfrentavam e botavam para correr policiais, que, sem reforços, tinham de fugir mesmo.
No Recife ficaram famosos os shows de Lolita nas escadas da antiga Escola de Engenharia na rua do Hospício. A cantar números de Angela Maria - à pergunta do refrão da música “será que eu sou feia?”, ouvia a resposta em coro da estudantada ”não é não senhor” - expunha-se como uma Geni às pedras, nem sempre metafóricas, da turba que gritava, ria, assobiava, empurrava, e arriscava, os mais valentes, a dedada que podia custar caro à saúde. O show acabava com a polícia que chegava batendo. Lolita fugia ou ia preso, mas a cidade ficava saciada e, como na música de Chico, podia manter zelosamente seus armários abarrotados.
Os homosexuais da televisão brasileira sempre tiveram a proteção das Genis que expondo-se de forma exagerada e histriônica atraíam para si todas as pedras possiveis. E nenhum exerceu esse papel com mais vigor e talento que Clodovil. Na época em que a estrela maior da alta costura brasileira, Denner Pamplona de Abreu, escondia a sua flagrante e por todos conhecida homossexualidade em um casamento conto de fadas com uma socialite famosa, Clodovil brandia a sua condição em todas as revistas, em todas as telas, em todos os lares.
Clodovil tornou-se uma celebridade, na sua profissão de estilista da moda, na televisão em todos os programas que participou, e na Câmara, como um dos deputados mais votados da história. A irreverencia, o tom debochado, o seu programa de entrevistas “lente da verdade” que passava a idéia de “sempre dizer a verdade”, foram os pontos destacados nas dezenas de homenagens recebidas (Ruy Castro, Reinaldo Azevedo, Barbara Gancia, Carlos Heitor Cony, entre outros). Mas nada do Clodovil gay.
Clodovil foi uma Geni para os gays durante muito tempo, mas foi a última. Hoje em dia não há mais necessidade de Genis. Os gays já possuem, como se diz, cidadania. Paradoxalmente Clodovil é um reacionário da chamada causa gay, e não é à toa que ele é odiado pelos seus líderes. Perguntado pela Veja a razão de não ter apresentado como deputado nenhum projeto de defesa dos homossexuais, respondeu: “Deus me livre. Quais direitos? Direito de promover passeata gay? Não tenho orgulho de transar com homem. O primeiro homem que vi transando com outro foi meu pai – era o meu tio, irmão da minha mãe. Eu tinha 13 anos.”
Miles Davis sempre fez chiste de Louis Armstrong. Reclamava de suas caretas e risos fartos usados, segundo ele, para agradar os brancos e rebaixar-se a eles. Mas Louis Armstrong com as suas caretas abriu bem mais caminhos para o negro jazzista americano que as inúmeras brigas de Miles com os brancos. Armstrong é que possibilitou Miles. Talvez seja o mesmo com Clodovil. Os grupos gays brasileiros cheios de causas e causas a defender devem mais do que pensam a Clodovil. A última Geni.