Contos

 
 

Jesuína

Volto ao bairro do Jardim Paulista. O Jardim Paulista baixo, para ser mais preciso.“Baixo” porque existe o Jardim Paulista alto que situa-se, claro, mais alto. Não é dificil de encontrar: em alguma altura da BR 101, já perto do municipio do Paulista, em Pernambuco, dobra-se à direita, no caminho do “Veneza Water Park”. Mais adiante um trevo exibe as escolhas: em frente o caminho das águas, à esquerda o centro da cidade do Paulista e, à direita, o Jardim Paulista alto. Era para la que desejava ir, mas estacionei o carro embaixo, pois queria ainda tomar duas cervejas na “Fava da Mainha” antes de repetir o caminho de cinco anos atrás. Caminho que havia feito dezenas de vezes em minha vida, mas que desejava repetir, pois queria lembrar do último. O caminho de Jesuína.

Jesuína era crente. Daquelas que só saiam de casa de saia, saia quase justa, blusas com mangas e com o decote discretíssimo; que saiam de casa apenas para a escola, para a igreja ou para fazer algum mandado de casa. As crentes eram o objeto de desejo preferencial dos meninos e rapazes do Jardim Paulista. Ninguém pensava duas vezes: entre a crente e a bela a preferência era sempre pela crente. As crentes eram as mais cobiçadas. O decote que era proibido, as mangas das blusas que só elas assim usavam, a saia justa abaixo do joelho – a saia! - justa! - abaixo do joelho! - tudo isso as tornavam imbatíveis. Imbatíveis no imaginário erótico dos jovens do Jardim Paulista. Não havia regras, mas acredito que se começava a olhar de verdade para as meninas quando elas tinham de treze a catorze anos. Antes era só de safadeza, era só de mentirinha.

Mas com Jesuína foi diferente, pois comecei a olhá-la quando mal ela havia completado onze anos. Mas o olhar era diferente também. Não era apenas o olhar das ”conversas de safadeza”, havia algo diferente, eu sentia a diferença. Eu passei assim a perseguir Jesuina. Perseguir não, é muito, acompanhar apenas. E sempre de longe: os mandados de casa, a escola, a igreja, os finais de semana torturosos que eu não sabia para onde ela e a família iam, etc. Eu procurava saber de tudo sobre Jesuina, e nunca falava a ninguem, nem a ela, nem em casa, nem aos meus amigos. Jesuina era minha. Apenas minha. Uma ficção minha que existia, ou uma moça que existia e que eu ficcionava. Não sei ainda hoje o que é o amor, mas seja o que seja tem de ser próximo ao que sentia por Jesuina naquela época.

Subi em direção ao Jardim Paulista alto. O objetivo era simples, apenas alcançar a segunda rua à direita e, na esquina, atrás da árvore, esperar Jesuina passar. Repetir o último caminho. A pista eu conhecia bem: a esquerda uma floresta nativa, na qual ainda é possível colher os ingás e as macaíbas. Em frente: Mirueira, Santa Casa, Alto da Bondade, Caixa d’água, etc. Continuando em frente chega-se em Beberibe.

Ela sabia que eu sempre estava ali a esperar por ela, ali atrás da árvore. Dias? Meses? Anos? Nunca contei. Passou a ser uma obrigação minha, nas quintas depois do culto, o culto era lá embaixo, e que ela nunca deixava de participar. O tempo passava e eu jamais deixei de, no meu canto atrás da árvore, esperar Jesuína passar. E ela e o tempo passavam e eu nada dizia e eu nada fazia. E ela sabia.

Eu a vi chegando. Sempre a via chegando. No inicio com colegas. Bem depois sozinha. Mas sempre abraçada á Bíblia. Criei um dia coragem. Hoje ou nunca, poderia ter dito. Puxei-a rápido para a árvore. Um grande medo Jesuína teve, e não saberia dizer se falso ou verdadeiro. De todo modo o possível medo dela não foi maior que a coragem minha de abordá-la. Pois planejava essa abordagem a tempos. Foi muita a coragem necessária.

Jesuína estava estatelada na minha frente. Na minha frente quero dizer, eu a abraçava fortemente contra o meu corpo, mas ela de costas para mim. Um tempão ficamos assim. Insinuações muito discretas declaravam um ao outro a conivencia e o encantamento. O silencio total. A escuridão. A vontade e o prazer que não se permitiam explodir. O silencio foi quebrado por Jesuina. Ela falou, repetindo o que dissera quando a puxei para a árvore: “Não conta para ninguém não.” “Conto não”, respondi. Ato continuo subi a saia dela e a pressionei mais contra meu corpo. Ouvi de novo: “Não conta para ninguém não.” Jesuína agarrada à Bíblia, eu a puxava contra mim, e ela pressionava a Bíblia contra si, e eu sentia dois mil anos de pecados contra mim. Continuamos na mesmo posição, um tempão, mas me vi depois com o sexo desnudo, e retirei de Jesuina a sua última coberta íntima. Mas escutei novamente: “Não conta para ninguém não.” Eu estava nas últimas e, na mesma posição, segurava Jesuina pressionando suas pernas contra meu sexo, enquanto acariciava o dela. Ouvi mais vezes: “Não conta para ninguém não.” Um estremecimento mútuo, e senti a urina quente de Jesuina misturada com a prova de meu prazer. Jesuína correu de mim rápida, mas voltou-se ainda para dizer. “Não conta para ninguém não.”

Depois dessa noite deixei o Jardim Paulista. Eu jamais contei a ninguém. Não sei o que foi feito de Jesuína.

 
 

A mãe e a cadela

R. tem dezessete anos. É de classe média, a mãe é artista plástica e o pai é comerciante. Os pais são separados, desde quando ele tinha doze anos. Ele mora com a mãe em um pequeno sítio na cidade de Paulista, em Pernambuco. No sítio, R. e a mãe cuidam de um canil e a venda dos filhotes de raça acrescenta uma renda a mais na família. R. é branco, podia passar por louro, e é alto, bem mais alto que a média de seus colegas do sítio e da própria cidade de Paulista.

R. mal havia completado catorze anos quando ocorreu o incidente. Cara de menino que ainda hoje tem, aos catorze, a cara batia de fato com a idade. Menos até, ele parecia ser um menino de no máximo doze anos de idade. A altura de R., menino, garoto ou adolescente, sempre foi acima da média. O incidente: R. engravidou a namorada.

Em qualquer família isso é um problema. Não seria diferente com a família de R. De modo que ele pensou várias vezes, e relutou várias vezes antes de comunicar aos pais. E ainda mais com os pais separados, uma complicação a mais. Os pais compreenderam, quando afinal reuniram-se para ouvir o “grande problema” que atormentava o filho. Para surpresa de R., acostumado que já estava com as vezes que eles nem se compreendiam, nem compreendiam os filhos. Os filhos sim, R. tinha uma irmão mais velho. A compreensão significou: a surpresa, a forte reprimenda, a cobrança de que ele conhecia – “eu mesmo falei várias vezes da importância do sexo seguro”, dizia a mãe - os instrumentos para evitar gravidez precoce ou indesejada e para evitar as doenças sexualmente transmissíveis, etc. Os pais então souberam mais ainda: a namorada não era namorada, mas uma garota que o filho encontrara em um pagode na praça principal do Jardim Paulista Baixo; que a garota não era propriamente uma garota, mas já uma mulher de seus vinte e nove anos de idade; que era de família humilde. Compreender não significa necessariamente aceitar. De modo que veio a pergunta inevitável: o que fazer, agora? Mais reprimendas para R., mas agora já com atenuações e indicações de aceitação: “aceitar o que Deus quis”, “podia ser pior”, “que pelo menos a criança nasça com saúde”, “que você aprenda agora”, etc.

R. chegou em casa chorando. Na sala sentou-se e, aos prantos, mal podia contar à mãe o que afinal havia ocorrido. “Ela não quer o menino. Ela disse que vai abortar. Que não ia estragar a vida dela por conta do menino.” “Mas, mãe”, continuou R., “eu quero o menino, eu não quero que ele morra, eu posso cuidar dele, não é justo que o matem, isso devia ser proibido. Ajude-me, mãe.” A mãe, claro, não iria, pelo menos nesse primeiro momento de desespero adolescente, deixar de atender. Mas não foi difícil para a mãe, e para o pai depois, condenar o aborto e aceitar a gravidez. Pois, aborto, por diversas razões, mas cada uma delas para cada um dos pais, sempre foi algo proibitivo. Os pais, o pai já integrado nas novas, decidiram lutar com o filho e  a favor do futuro neto. O que fazer agora?

As notícias não eram animadoras. Mesmo depois de vários dias, de várias idas e vindas, das garantias de que os pais – dele – sustentariam o menino, a mãe continuava irresoluta: “não quero o menino”. Assim, o filho continuava triste. Os pais, que eram contra o aborto sim, mas não tanto a fim de entrar contra a mãe, contra a namorada do filho. O problema era a insistência do filho em preservar o rebento que ele ainda não conhecia, em insistir que não aceitava que, em um toque talvez dramático, “matassem o menino.” Os pais entenderam ou aceitaram. De todo modo a tristeza daquele garoto, antes eternamente sorriso, os levou a mãe. Não foi fácil a conversa, pois, como se falou depois: “aí é que ela cresceu”. Mas, “crescer” significa passar a exigir, como se usava a expressão. Foi necessária a brutalidade legal: “ou você tem o menino ou entramos com uma ação penal contra você.”, disseram os pais. Claro, ele era um garoto, ela já era uma mulher. Fácil de ganhar, fácil de levá-la a prisão. O argumento ad baculum funcionou.

Uma pequena festa particular, no sítio da mãe, com a presença do pai. O que se comemorava? O neto? Seria porque seria o primeiro neto dos dois pais? Não, eles ainda não sabiam o que era ser avô, ou avó, apenas comemoravam a alegria do filho. O filho voltara a sorrir. Foi o pai que perguntou: “Meu filho, impressionante seu espírito de paternidade. Como você o adquiriu?” A mãe, o irmão, mais um casal em visita, ficaram calados com a resposta.

“Pai, mãe, eu não tenho espírito de paternidade, eu não sei o que é ser pai. Eu tenho espírito de maternidade. Foram quatro anos assistindo e ajudando os partos das nossas cadelas. Eu conheço os sofrimentos e as alegrias das cadelas quando elas têm seus filhotes. Quando elas perdem um da ninhada, eu perco com elas. Por que ia ser diferente com meu filho?”

 
 

O Brasil, o escrivão e o juiz

As semanas pré-carnavalescas do Recife/Olinda são tão boas quanto o próprio carnaval. Há quem as prefira. Brinca-se antes e refugia-se nas praias durante. Foi o que pensaram dois irmãos jovens. Jovens mas nem tanto, pois um já era juiz de direito e o outro um pequeno empresário.

Marcaram de se encontrar as oito lá na Bodega do Véio, uma mercearia do alto de Olinda que fica, para quem vem dos quatro cantos, à direita na subida que leva ao largo do Amparo. Uma mercearia cuja grande atração é não ter atração alguma, isto é, ela é simplesmente uma mercearia. Mas que encantou e encanta a todos que lá vão. Aqueles que lá vão para comprar apenas o pão nosso de cada dia, que ela nunca deixou faltar, e aqueles que lá vão atrás daquilo que ela nunca pensou em oferecer, e que eles parecem encontrar. O quê não se sabe. A frente da Bodega enche de pessoas, todas elas a beberem, a conversarem, a se olharem. Essa é a festa. Essa é a atração.

Já são onze horas da noite e, como se diz, amanhã é dia de branco. Mas dá para tomar a saideira, disse um deles, a famosa saideira. Tomaram o carro, que haviam estacionado no Carmo, embaixo do alto de Olinda, e dirigiram-se para, bem pertinho dali, a praia dos Milagres, para um dos bares daquela série que começa na Ilha do Maruim, na praia de Punta Del Chifre, mais ao Sul e que se alastra até os Milagres, mais ao Norte. Nada mais perigoso. A qualquer hora do dia. Às duas da manhã e embriagados e nos Milagres o que esperavam os dois jovens? O óbvio aconteceu: entraram em confusão ou fabricaram confusão.

Estavam já trancafiados. Na Delegacia do Varadouro, quase em frente do bar da arruaça. São duas e trinta da manhã e o escrivão sonolento, todos deveriam estar sonolentos às duas e trinta da manhã, escrevia o depoimento dos dois jovens, registrava a ocorrência. O primeiro foi o jovem juiz. Nome? E a Remington gastava um bom tempo não billgatesiano para registrar. CPF? RG? Endereço? Profissão? “Juiz de direito”, respondeu o jovem já curado de seus excessos etílicos.

Os dedos do escrivão ficaram suspensos no ar, a Remington, passiva, esperando uma atitude. O escrivão degustava o que acabara de ouvir: juiz de direito. Essa a profissão do encarcerado. O mundo estava mesmo mudado, pensou ele, pois nunca em sua vida de vinte anos de escrivão havia testemunhado tamanho descompasso entre o ilícito e a profissão. Ligou de pronto para o delegado de plantão que não estava de plantão, não teve coragem de escrever tal profissão.

-Doutor, acabei de prender um juiz.

-O quê? Um juiz? De futebol?

-Não. Juiz mesmo, juiz de direito. Ele está preso na cela.

“Faça o seguinte, meu amor”, disse o delegado ironizando; e continuou “pegue a chave da cela que está aí na sua mesa, abra a cela, solte o juiz, se tranque, jogue a chave fora e quando eu chegar pensarei no seu caso.”

Os dois amigos agradeceram ao escrivão e foram dormir. Eram quatro horas da manhã.

 
 

Xatima Kintas

 

Acordo antes da manhã. É bom chegar antes. Senti apenas falta do sol fustigando minhas faces. Abro a janela e permito às lufadas frias da manhã que ainda não chegara invadir a alcova. Mas elas invadem também a minha alma. E o pegnoir que respondia esvoaçante ao clamor da manhã vacilante me faz olhar para o meu corpo. Vejo que também possuo um corpo. No espelho admiro-o, gosto dele. Por que a minha alma inquieta e triste não se acomoda nesse corpo belo? Não, não cederei aos desvarios cartesianos. Faço rápida a ablução matinal e dirijo-me para a rua, decidida a acordar o sol. Não sem antes sorrir - diria ironicamente - para os heideggers, espalhados no chão ao lado da cama, que teimavam em nadificar o nada que se tornara a minha existência. Já na rua corro célere e feliz para o mar. A alameda de araucárias - não são araucárias? Que pena! -protege a minha tez indefesa que pressente o fustigar bravio do sol a nascer. Corro mais ainda ao chegar à praia. Não permito que o vazio da alma, que as dúvidas existenciais contaminem aquele encontro primevo entre o ser e a natureza. Sinto o farfalhar da respiração ofegante. Corro mais ainda. A água do mar beija meus pés, e a sinto na boca. O sal da terra. O sal do mar. Corpo e alma. Sorrio com a união. Sinto como a filosofia é vã para os anseios que explodem de mim para fora. Paro lassa e me deixo cair ao lado de uma jangada. Breves brumas chegavam com as ondas que pediam para banhar meus pés. O corpo extenuado parecia combinar com o vazio da alma que voltava.

Devo ter dormido bastante. O sol não era mais criança. Apanho o pegnoir que dormia ali ao meu lado. Nua, pegnoir na mão, admiro o horizonte. Estou feliz. Sou feliz. O vazio da alma esvaiu-se. Corpo e alma fizeram as pazes. Olho para o lado e vejo um pescador bruto. Ele sorriu para mim. O seu sorriso me disse tudo.

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