O Brasil, o escrivão e o juiz
As semanas pré-carnavalescas do Recife/Olinda são tão boas quanto o próprio carnaval. Há quem as prefira. Brinca-se antes e refugia-se nas praias durante. Foi o que pensaram dois irmãos jovens. Jovens mas nem tanto, pois um já era juiz de direito e o outro um pequeno empresário.
Marcaram de se encontrar as oito lá na Bodega do Véio, uma mercearia do alto de Olinda que fica, para quem vem dos quatro cantos, à direita na subida que leva ao largo do Amparo. Uma mercearia cuja grande atração é não ter atração alguma, isto é, ela é simplesmente uma mercearia. Mas que encantou e encanta a todos que lá vão. Aqueles que lá vão para comprar apenas o pão nosso de cada dia, que ela nunca deixou faltar, e aqueles que lá vão atrás daquilo que ela nunca pensou em oferecer, e que eles parecem encontrar. O quê não se sabe. A frente da Bodega enche de pessoas, todas elas a beberem, a conversarem, a se olharem. Essa é a festa. Essa é a atração.
Já são onze horas da noite e, como se diz, amanhã é dia de branco. Mas dá para tomar a saideira, disse um deles, a famosa saideira. Tomaram o carro, que haviam estacionado no Carmo, embaixo do alto de Olinda, e dirigiram-se para, bem pertinho dali, a praia dos Milagres, para um dos bares daquela série que começa na Ilha do Maruim, na praia de Punta Del Chifre, mais ao Sul e que se alastra até os Milagres, mais ao Norte. Nada mais perigoso. A qualquer hora do dia. Às duas da manhã e embriagados e nos Milagres o que esperavam os dois jovens? O óbvio aconteceu: entraram em confusão ou fabricaram confusão.
Estavam já trancafiados. Na Delegacia do Varadouro, quase em frente do bar da arruaça. São duas e trinta da manhã e o escrivão sonolento, todos deveriam estar sonolentos às duas e trinta da manhã, escrevia o depoimento dos dois jovens, registrava a ocorrência. O primeiro foi o jovem juiz. Nome? E a Remington gastava um bom tempo não billgatesiano para registrar. CPF? RG? Endereço? Profissão? “Juiz de direito”, respondeu o jovem já curado de seus excessos etílicos.
Os dedos do escrivão ficaram suspensos no ar, a Remington, passiva, esperando uma atitude. O escrivão degustava o que acabara de ouvir: juiz de direito. Essa a profissão do encarcerado. O mundo estava mesmo mudado, pensou ele, pois nunca em sua vida de vinte anos de escrivão havia testemunhado tamanho descompasso entre o ilícito e a profissão. Ligou de pronto para o delegado de plantão que não estava de plantão, não teve coragem de escrever tal profissão.
-Doutor, acabei de prender um juiz.
-O quê? Um juiz? De futebol?
-Não. Juiz mesmo, juiz de direito. Ele está preso na cela.
“Faça o seguinte, meu amor”, disse o delegado ironizando; e continuou “pegue a chave da cela que está aí na sua mesa, abra a cela, solte o juiz, se tranque, jogue a chave fora e quando eu chegar pensarei no seu caso.”
Os dois amigos agradeceram ao escrivão e foram dormir. Eram quatro horas da manhã.
Escrito por Fernando Raul Neto às 08h57
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