Xatima Kintas

 

Acordo antes da manhã. É bom chegar antes. Senti apenas falta do sol fustigando minhas faces. Abro a janela e permito às lufadas frias da manhã que ainda não chegara invadir a alcova. Mas elas invadem também a minha alma. E o pegnoir que respondia esvoaçante ao clamor da manhã vacilante me faz olhar para o meu corpo. Vejo que também possuo um corpo. No espelho admiro-o, gosto dele. Por que a minha alma inquieta e triste não se acomoda nesse corpo belo? Não, não cederei aos desvarios cartesianos. Faço rápida a ablução matinal e dirijo-me para a rua, decidida a acordar o sol. Não sem antes sorrir - diria ironicamente - para os heideggers, espalhados no chão ao lado da cama, que teimavam em nadificar o nada que se tornara a minha existência. Já na rua corro célere e feliz para o mar. A alameda de araucárias - não são araucárias? Que pena! -protege a minha tez indefesa que pressente o fustigar bravio do sol a nascer. Corro mais ainda ao chegar à praia. Não permito que o vazio da alma, que as dúvidas existenciais contaminem aquele encontro primevo entre o ser e a natureza. Sinto o farfalhar da respiração ofegante. Corro mais ainda. A água do mar beija meus pés, e a sinto na boca. O sal da terra. O sal do mar. Corpo e alma. Sorrio com a união. Sinto como a filosofia é vã para os anseios que explodem de mim para fora. Paro lassa e me deixo cair ao lado de uma jangada. Breves brumas chegavam com as ondas que pediam para banhar meus pés. O corpo extenuado parecia combinar com o vazio da alma que voltava.

Devo ter dormido bastante. O sol não era mais criança. Apanho o pegnoir que dormia ali ao meu lado. Nua, pegnoir na mão, admiro o horizonte. Estou feliz. Sou feliz. O vazio da alma esvaiu-se. Corpo e alma fizeram as pazes. Olho para o lado e vejo um pescador bruto. Ele sorriu para mim. O seu sorriso me disse tudo.

 
 

Paulo Freire

Amar é um ato de coragem.

 
 

Paulo Coelho

  1. Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia.
  2. Quantas coisas perdemos por medo de perder.

 

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