"In der Mathematik ist die Kunst des Fragenstellens wichtiger, als die des Lösens. (Na matemática a arte de colocar o problema é mais importante que a de resolvê-lo.)"
Autor: Georg Cantor (1845-1918)
Eu sou Santa Cruz, de corpo de alma e serei sempre de coração ! No próximo ano, 2008, seremos campeões da série C - uma importante série no futebol brasileiro. Em 2009, como conseqüência, campeões da série B. Entramos então no, por outas razões, já esperado 2010, na série A. Saudações tricolores a todos.

"In der Mathematik ist die Kunst des Fragenstellens wichtiger, als die des Lösens. (Na matemática a arte de colocar o problema é mais importante que a de resolvê-lo.)"
Autor: Georg Cantor (1845-1918)
Estamos em novembro de 1970, já éramos tricampeões de futebol do mundo, mas ainda ecoava a euforia oficial do Noventa Milhões em ação, Pra Frente Brasil, Salve a Seleção! que não pudemos deixar de compartilhar. Sábado era dia da Sete de Setembro. Todos nos encontrávamos lá. Passávamos primeiro na Livro 7, quando ela ainda era do outro lado e quando só tinha 7 livros e 7 clientes. Depois Tarcísio ficou rico, para desgosto e inveja de muita gente que passou a roubar seus livros e que dava discursos indignados quando era flagrado no ilícito, pois afinal tratava-se de uma ação revolucionária (?). Os bares que íamos variavam, podia ser o Moscouzinho ou o Beco da Fome, bem ali entre as Lojas Americanas e o Edifício Pirapama, mas servia qualquer outro desde que servisse uma bem gelada e nos desse guarida para falarmos mal do mundo, em particular da ditadura. Eu também ia lá na Sete de Setembro aos sábados para comprar meu Pasquim. Nesse dia, lembro bem ainda hoje, estranhei fortemente a capa do Pasquim, O Pasquim, nº 73 - Rio, de 11 a 17/11/70.

Um Pasquim automático? Sem o Ziraldo, sem o Jaguar, sem o Tarso, sem o Millor, sem o Flavio, sem Sergio, sem o Fortuna, sem o Garcez, sem a redação, sem a contabilidade, sem a gerência e sem o caixa (foi o que li na capa) como pode? De início, bobamente, pensei era mais uma do Pasquim, pois o Pasquim sempre trazia mais uma. Abri o jornal e todo ele exalava tristeza, não era mais um jornal de humor, não era mais a minha e a nossa válvula de escape. No bar, já junto dos amigos, entendi: a ditadura havia prendido toda a redação do Pasquim. Tomamos, nesse sábado, mais cervejas que o habitual. Ficamos tristes. E mais uma vez comecávamos a lembrar dos amigos presos, dos desaparecidos, dos que foram torturados, dos exilados e dos nossos heróis da UNE.
Quem tem menos de 40 anos de idade não faz idéia alguma do que é viver sob uma ditadura. Qualquer que seja ela, de direita, o caso da brasileira, ou de esquerda. Livros, filmes, shows, peças de teatro, músicas, poesias, tudo, pelos motivos mais imponderáveis e pelas razões mais absurdas (mesmo olhando pelo olhar do censor), tudo era proibido. Líamos o que restava da tezoura da censura.
O Pasquim transformou-se assim em nosso refúgio intelectual. Eles próprios, seus redatores e colaboradores, refugiados no jornal que eles haviam criado. Refugiados porque muitos haviam sido banidos da grande imprensa. O Pasquim, falava-se assim na época, fazia a nossa cabeça. A minha, pelo menos. De dica em dica (a expressão foi inventada pela Olga Savary, na época mulher do Jaguar) ficávamos sabendo de tudo que era culturalmente importante e universal. Os mestres maiores: Millor, Ivan Lessa e Paulo Francis. Sergio Augusto nos ensinava a assistir filmes. Sergio Cabral (o pai do Governador do Rio de Janeiro) escrevia sobre música. Jaguar, Ziraldo, Henfil, Claudius, Fortuna faziam o que havia de melhor em humor. Éramos, falava-se assim, pasquimaníacos. O Pasquim constituiu dessa forma e involutariamente uma grande frente de combate e de resistência à ditadura. Artistas e intelectuais unidos. O Pasquim falava de forma cifrada, de forma metafórica. Todos nós aprendemos a lidar com esses dribles dados na censura, de modo que os redatores do Pasquim não estavam presos, apenas tinham contraído uma forte gripe. A primeira edição do jornal após a libertação de seus redatores, que ficou detida por 60 dias, foi a de 14/01/1971.

Um subproduto da ditadura que vivenciamos: não havia confrontos entres idéias de direita e de esquerda. A direita mandava apenas, não falava, não escrevia, não discutia, não tinha idéias no mercado (claro que havia a propaganda, mas falo de outra mídia). A esquerda obedecia (os que assim não procederam foram eliminados ou torturados ou exilados ou silenciados), embora falasse e escrevesse e discutisse e fizesse a cabeça das pessoas. A universidade, passado os primeiros momentos de expurgo de docentes e de invasões, transformou-se no palco onde exercíamos nossas indignações. É o paradoxo da ditadura: vivíamos sob o chicote da ditadura, mas as idéias eram nossas. Havia o conforto de estarmos todos juntos no mesmo lado do bem contra todos aqueles que não estavam do nosso lado e, por conseguinte, eram do lado do mal. Mas vivíamos sob dois silogismos logicamente falsos: 1) a ditadura é de direita e a ditadura é má, logo a direita é má e 2) a esquerda é contra a ditadura e a ditadura é má, logo a esquerda é boa. Foram vinte e cinco anos de maniqueísmo, foram vinte e cinco anos de ditadura, foram vinte e cinco anos que se viveu sem o confronto de idéias, foram vinte e cinco anos acreditando em Deus no céu e na esquerda na terra.
Os torturados, os presos, os banidos, os silenciados da ditadura estão hoje no poder. A esquerda está há algum tempo no poder. E foi ladra ou cúmplice de assaltos aos cofres públicos. Não cumpriu e não cumpre nada daquilo que, ao cabo e ao final, emocionava um jovem de 21 de anos de idade com o Pasquim na mão na Rua 7 de Setembro lá no Recife.
O Curso de Filosofia da UFPE abriu seu primeiro semestre letivo deste ano (1997) com a presença do filósofo Olavo de Carvalho. Foram uma palestra de abertura e um curso intensivo sobre Aristóteles, especialidade do professor visitante. A expectativa era grande, comprovada pela forte presença de estudantes e de professores no evento. Expectativa justificada, o filósofo Olavo de Carvalho é o autor de O Imbecil Coletivo, livro que o colocou fortemente na mídia por conta de suas arrasadoras críticas a nomes consagrados da intelectualidade brasileira. Nomes que vão de Caetano Veloso a Arthur Giannoti, tido, pela própria imprensa (Folha de São Paulo) como o "primeiro filósofo brasileiro".
Também compartilhei da expectativa geral. Já havia lido do autor seu pequeno, porém excelente, livro sobre Aristóteles e O Jardim das Aflições. Havia também acompanhado pelos jornais o espernear de muitos nomes consagrados da filosofia brasileira contra as críticas do, segundo a própria mídia, "filósofo" - assim com aspas - Olavo de Carvalho. O espernear é compreensível, afinal de contas não é uma prática corrente na academia brasileira que as pessoas tirem os olhos de suas pesquisas para exercer o salutar dever da crítica. Corporativismo ou medo de uma rebordosa? Foi preciso um outsider - Olavo de Carvalho não é professor nem da USP nem de alguma universidade federal - para que a dúvida incômoda se instalasse. Acho também injusta a ironia presente nas aspas do filósofo. Aspear porque não é pesquisador do CNPq? Ou porque não tem projeto na CAPES? Críticas têm de ser respondidas no conteúdo proposto por elas. Se professor de filosofia ou, de fato, filósofo, não é questão para ser decidida através de simpatias ou antipatias mútuas.
Foram, assim, admiração e expectativa que me levaram a comprar rapidamente o O Imbecil Coletivo, lê-lo avidamente e, na noite anterior à visita do filósofo, participar do lançamento do livro em Recife na A Quinta do Livro do meu amigo François. Minto, não havia apenas admiração e expectativa, havia também o capítulo de O Jardim das Aflições sobre George Cantor.
George Cantor, que a História confirmará como o maior matemático do século XX, dividindo o troféu com David Hilbert, outro alemão (claro que não estou falando de votações, e sim daquela unanimidade sem regras que só a História declara), é, coletivamente, imbecilizado por Olavo de Carvalho em Os Jardins das Aflições. George Cantor publicou nos Mathematische Annalen ao final do século XIX seus Beiträge zur Begründung der transfiniten Mengenlehre (Contribuições para a fundamentação da teoria dos conjuntos transfinitos) e atualizou - no sentido aristotélico da palavra - o infinito matemático, criando assim a Aritmética transfinita (hoje, uma importantíssima área de pesquisa em Matemática e com fortes ligações com a Informática) e um Paraíso matemático do qual, segundo David Hilbert, "niemand wird uns vertreiben" (ninguém nos expulsará).
Olavo de Carvalho está errado. Ele não entendeu Cantor. Como criticá-lo e corrigi-lo? Aí está a séria dificuldade. É como criticar uma daquelas centenas de "provas da quadratura do círculo" que, no mundo todo, aparecem nos corredores dos departamentos de Matemática das universidades. A primeira dificuldade é entrar na lógica interna do argumentador atrás de seus princípios. A segunda é, supondo o sucesso da anterior e utilizando aqueles mesmos princípios, acompanhar os diversos modus ponens, modus tollens, etc. para verificar se, pelo menos, a argumentação do homem são está em ordem. Supondo esta etapa também bem sucedida, acontece o intransponível: a discussão dos princípios. Aí não tem santo que ajude! É como discutir futebol. Com Olavo de Carvalho tudo isto fica mais complicado ainda, uma vez que ele não se coloca recursivamente em seu Best seller. Pelo contrário, ele é um intelectual, um erudito mesmo, não é um bobo atrás de uma quadratura de círculo qualquer. Apenas que os princípios dele estão todos em outro plano. A análise desses princípios (não me acusem de contradição, eu gosto de discutir futebol!) tratarei em um artigo específico que, como prometido ao próprio filósofo na A Quinta do Livro, o enviarei antes de qualquer publicação.
Se fosse apenas pelo Cantor, não teria escrito esta pequena resenha. Cantor já possui muitos defensores. Acontece que, como ouvimos na palestra de abertura no Departamento de Filosofia, não apenas o Cantor está no índex do filósofo Olavo de Carvalho. Tirando Aristóteles, poucos filósofos se salvaram da navalha do Olavo. Peirce e Wittgenstein, entre dezenas, foram tratados como imbecis, ignorantes, etc., etc. Vejam bem, não defendo nenhum provincianismo filosófico ("provinciano é aquele que quer sair da província" Mário Quintana). Acho mesmo que o Brasil pode pensar filosoficamente, e que não precisamos acompanhar as modas filosóficas trazidas do estrangeiro. Mas não acho que por conta do fato que, em particular, Peirce e Wittgenstein, serem, no mundo todo, objetos de centenas e centenas de artigos, livros, teses, ensaios, biografias, etc., não possa sair, do Brasil, uma voz original. O que acho, e acompanho, como sei diz hoje, a voz rouca dos estudantes de mestrado e doutorado que assistiram à palestra do filósofo, é que as críticas fortes foram pobremente justificadas. Seria como se a iconoclastia, esteticamente organizadas em um conjunto de frases de algibeira, bastasse para garantir as verdades pretendidas. Infelizmente, pelo menos na academia, uma idéia precisa ser bem justificada. Para os estudantes o comportamento iconoclástico fora de medida do filósofo Olavo de Carvalho não foi uma boa lição.
Mas continuo admirando a coragem erudita de quem saiu para bater nas vacas sagradas da academia brasileira, obtendo o silêncio como resposta. Silêncio que é a maior prova de que a academia acredita que onanisticamente se basta. Prova de que ela dá as costas para a nação, para a educação do povo, deixando que os Carlinhos Brown da vida (e com todo respeito aos seus batuques) vomitem, impunemente e com a cumplicidade da mídia, sobre ciência, educação, cibernética, sexo, política, religião, esoterismo, e o que mais couber em suas tranças. Está aí, é recente, o Quanta de Gil. Disco que não ouvi ainda (e que até acredito, pelo passado musical de Gil, ser de ótima qualidade) por absoluta repulsa ao que vem sendo dito pelo próprio compositor e pela mídia conivente. Um disco que pretende sintetizar tudo aquilo, da ciência ao esoterismo, que a academia vem estudando! Quanta bobagem! Quanta falta faz, em uma academia, a presença de olavos de carvalho!
A caminho da Bahnhof de Herford para tomar um trem para Göttingen encontro o outdoor abaixo da diegesellschafter.de (http://diegesellschafter.de/).

A diegesellschafter.de seria no Brasil uma ONG, mas sem dinheiro público. Uma entidade nova, criada em março de 2006. A lista de financiadores é imensa e portentosa. Pode ser conferida no saite. O motto da organização é In was für einer Gesellschaft wollen wir leben? (Em qual tipo de sociedade desejamos viver?). Um tema da campanha de 2007 é Ungleichungen (Desigualdades) que é desenvolvido por meio de vários questionamentos que utilizam o sinal de igualdade =. Podem ser conferidos, entre outros, Arbeitslos = Wertlos? ; Verschieden = Vertraut?; Herkunft = Zukunft?; Nebeneinander = Miteinander? que expressam tanto as proximidades lingüísticas das expressões utilizadas em cada lado quanto os diferentes comportamentos humanos que elas traduziriam.
Me interessou o cartaz acima: DASEIN = DABEI SEIN? porque imaginei o que aconteceria se ele chegasse às mãos de um deleuziano versado em Heidegger (difícil) ou um heideggeriano versado em Deleuze (mais ainda). Independente desses meus dois experimentos mentais, ficou claro para mim mais uma argúcia de Wittgenstein: o estrago que é feito quando as palavras são retiradas de seu leito normal: a vida. Dasein e dabei sein são expressões do cotidiano alemão inteligíveis para qualquer alemão (daí sua utilização na campanha) e Heidegger parte, naturalmente, desse entendimento cotidiano para forjar as suas conceituações. Claro que o filósofo necessita moldar/ampliar a expressão vigente de modo a que ela passe a expressar também as minúcias de sua filosofia. O problema inicia, menos com o filósofo do que com os seus epígonos, quando, de minúcia em minúcia, as expressões linguísticas afastam-se de seu leito natural e comecam a significar o que cada um acredita que elas devam significar. Instaura-se então a polissemia, a babel de sentidos. Uma observação: prestem atencão ao sentido passivo do lado esquerdo da igualdade e ao sentido ativo do lado direito.
"Für eine gelungene Rede gebrauche gewöhnliche Worte und sage ungewöhnliche Dinge. (Para um bom discurso utilize palavras ordinárias e diga coisas extraordinárias.)"
Autor: Arthur Schopenhauer (1788-1860)
""Dos artistas do Rio, metade é preto que acha que é intelectual e metade é intelectual que acha que é preto""
Autor: Tim Maia
São introduzidos aqui os complexos de Rousseau, de Frankenstein e de Jeckyll e Hyde, a partir da análise de notícias e opiniões extraídas da polêmica sobre a clonagem humana.
O livro nasceu de uma pesquisa de mestrado, mas desde a sua forma original já pedia uma publicação que atendesse a um público de fora da Academia. Tanto pela relevância do tema quanto pelas discussões levantadas, como frisou o professor Roberto Romano, da Unicamp, um dos componentes da banca examinadora, realizada em 2005. Roberto Romano, com sua generosidade de espírito, com seu incentivo, e seu exemplo crítico, é um dos pensadores que provocaram A Psicanálise do Clone.
Agradecimentos especiais são devidos aos professores Fernando Raul e Jesus Vazquez, representando todo o Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco, em cujo ambiente me foi propiciada a reflexão que perambula nestas páginas.
Espero que elas proporcionem uma boa leitura.
Fabio Lucas
Reproduzo abaixo o prefácio que escrevi para o mais novo livro do jornalista Fabio Lucas (Continente Cultural e Jornal do Commercio)
Do Fogo ao Clone
Este é um livro agradável de ler. Bem escrito, bem argumentado e com informações da mais alta importância para os dias de hoje. O livro prende o leitor com satisfação sempre renovada da primeira à última de suas páginas. É instigante também: provavelmente o leitor o comentará depois com os amigos. Mas escrever um livro agradável de ler parece, hoje em dia, não se constituir mais uma singularidade a ser festejada ou comentada em um prefácio; parece mais ser a exigência para que editores, em primeira instância, o publiquem e, depois, leitores o leiam. O difícil mesmo parece ser escrever um livro que, preocupado, a meu ver justamente, em ganhar o leitor, não desande com superficialidades, trivialidades, lugares comuns e outros artifícios usados exclusivamente para conquistar a sua adesão. Os best sellers de agora, nacionais e estrangeiros, estão aí para confirmar isto. Não é este o caso. Nascido de uma dissertação de mestrado, o livro já possui de saída o mérito de não maçar o leitor com rodapés inúteis, erudições fora de hora, normas sufocando o texto, escassez ou mesmo ausência de idéias novas, argumentações prolixas e tudo aquilo que faz com que, em geral, as dissertações de mestrado no Brasil sejam lidas - e por um dever de ofício! - quando muito apenas pelas respectivas bancas examinadoras. Mas o grande mérito de A psicanálise do clone é, sem dúvida, a atualidade de seu tema junto com a originalidade e a ousadia do enfoque escolhido pelo autor para abordá-lo. A atualidade do tema da clonagem parece indisputável. Ele está diariamente nos jornais, revistas, Internet e na mídia em geral; é objeto de discussão de mesas formais e informais; habita o imaginário e a imaginação das pessoas, leigas ou letradas; foi tema de novela brasileira; os cartunistas, os humoristas em geral, têm a clonagem como tema recorrente de seus trabalhos; é tema predileto de Hollywood. Por fim, mas fundamental, é que a clonagem é tema – hoje, agora – de cientistas. Fundamental, não porque seja tema de investigação científica, pois há vários outros temas que estão nos laboratórios e que não despertam nenhuma curiosidade a mais nem possuem alguma relevância suplementar. Fundamental é a singularidade da clonagem que, saída há muito das páginas de ficção, entra nos laboratórios como uma novidade. E o novo não é que, como se costuma dizer, a realidade passa a imitar a ficção. Não se trata no novo da inversão pura e simples da expectativa mais natural de a ficção imitar a realidade. Ficção e realidade sempre se influenciaram mutuamente, mas de forma temporalmente separadas. A novidade é que, na passagem da ficção para o laboratório, dos jornais diários para as revistas científicas, e vice versa, a clonagem instala o encontro inusitado e presente do real do imaginário com o imaginário do real. E ao imaginário ficcional se junta um outro, mais forte porque isento do distanciamento da realidade que qualquer imaginário possui, por mais real que ele se mostre. Trata-se da imagem que nos chega do cientista e da ciência, que é uma imagem fora de foco, deformada por interferências dos mais diversos matizes, desde os ideológicos até aqueles oriundos de um completo desconhecimento da prática do cientista e do jogo da ciência. Imagens do cientista e da ciência que ele pratica, que são construídas em nosso imaginário e são com elas que construímos a forma real e efetiva com a qual a clonagem - ela própria refém da forma como a herdamos do nosso universo ficcional e ideológico - é pesquisada pelos cientistas. Dessa forma, o cientista imaginário e a sua ciência imaginária se identificam com o cientista real e a sua ciência real. Não há mais distinção entre o real e o imaginário, eles são um só. Instalada a subjetividade do imaginário, arma-se o palco para idioletos e a conseqüente algaravia argumentativa. Um palco para a Psicanálise, para a Psicanálise do cientista da clonagem, para a Psicanálise do Clone, à moda da Psicanálise do Fogo de Bachelard. É o que autor pretende. A originalidade está na forma como se investiga o encontro acima descrito. E o original é o filosófico. O autor não escolhe entrar na discussão para exibir mais um ponto de vista acerca da clonagem. Por mais erudita e competente que fosse a intervenção, ela não estaria livre e isenta dos estereótipos e imaginários acerca da ciência e do cientista. Muito pelo contrário, são exatamente os intelectuais os que mais exibem suas ideologias ou idiossincrasias – os seus imaginários – como pano de fundo de suas intervenções. Contribuir dessa forma seria acrescentar mais um canto na dissonância argumentativa que descrevemos acima. O tratamento original consiste exatamente na escolha feliz da epistemologia de Gaston Bachelard como referencial teórico do exame. Não apenas o Bachelard de A Formação do Espírito Científico e O Novo Espírito Científico, textos clássicos da epistemologia da ciência e referências obrigatórias quando se fala de Bachelard, mas o de A Psicanálise do Fogo que analisa o imaginário do cientista. Mas o original da Psicanálise do clone se revela também na forma como Bachelard é utilizado. O usual é – a estrutura padrão da Academia em Filosofia! - pensar o tema, pensar o filósofo, e fazer a exegese do que o filósofo escolhido pensa acerca do tema escolhido. Tal tarefa tem as suas vantagens e a Filosofia tem progredido dessa maneira, assim como o entendimento filosófico acerca do mundo. Mas Fábio Lucas fugiu dessa alternativa. Bachelard sim, mas não o que Bachelard pensou sobre a clonagem, primeiro porque isso efetivamente não ocorreu e, segundo essa possibilidade seria uma tarefa que, além de anacrônica, estaria mais próxima do exercício literário que da Filosofia. O autor pensa o Bachelard que pensou o fogo. Se Bachelard pensou bem o fogo, é possível fazer o mesmo com o clone? Com a clonagem? Este foi o desafio. A ousadia do livro tem a ver com a sua originalidade. A utilização da filosofia bachelardiana, da forma como foi feita, em si já original, seria de menor monta se o autor não a utilizasse para fugir da, ou melhor, para denunciar a mesmice de idéias que alimenta o debate da clonagem. Debate que se desenvolve aqui mesmo no Brasil, mas também no chamado primeiro mundo do qual importamos, sem nos importarmos muito com o fato, a maioria de nossas idéias originais. O ponto é que anterior ao tema da clonagem já se encontra instaurado uma posição imaginário-ideológica acerca dos cientistas e da ciência que, do início, contamina a abordagem da clonagem. A clonagem entra na maioria dos debates apenas como forma de corroborar posições já de todo firmadas. Se acompanharmos as referências que a mídia e os formadores de opinião em geral fazem à ciência, procurando desvendar intenções, implícitas ou explícitas, constatamos uma clara oposição. Por um lado, a ciência é vista como portadora de verdades definitivas, pois, repete-se com freqüência, ela é exata. Não é à toa que a propaganda utiliza esta compreensão para prover um suporte de qualidade aos produtos veiculados. Produtos ou métodos cientificamente testados são oferecidos diariamente, seja a seleção de grãos de café ou a eficácia de uma nova pasta dental, e reforçada a mensagem com a imagem do cientista em sua bata branca em seu laboratório também branco. Também reforçam a idéia de uma ciência infalível todas as tecnologias e produtos oriundos dessas tecnologias que, sempre, são associados à precisão e certeza do método científico. Todas as maravilhas do mundo contemporâneo, desde o enfrentamento das doenças até às conquistas espaciais, passando pelo automóvel, telefonia, computadores, Internet etc., são creditados à ciência ou ao método que ela emprega. Reforçam ainda esta visão positiva da ciência os altos investimentos que governos e empresas fazem em pesquisas básicas e em tecnologia. Por outro lado, em claro antagonismo com a posição anterior, há uma criminalização crescente da atividade científica. A Ciência e o método a ela associado são vistos como causadores dos, como se repete, males da modernidade. A própria Ciência vista como paradigma maior da própria modernidade. É sintomático que há algumas décadas atrás C. P. Snow fazia sucesso entre os letrados com a sua constatação das duas culturas. Cientistas e humanistas eram os representantes das duas culturas e, diga-se de passagem, Snow reportava-se aos maiores entre os maiores. A tese de Snow, seu lamento, precisando melhor o objetivo de seu livro, é que eles, os cientistas e os humanistas, eram absolutamente ignorantes nas questões mais comezinhas da outra área. O que dizer hoje destas duas culturas? Elas parecem atingir um outro estágio. Elas passaram da ignorância do desconhecimento alheio ao ataque. O discurso humanista é condenado pela imprecisão, subjetividade e inexatidão, enquanto o discurso científico é condenado, sem negar a sua precisão, objetividade e exatidão, por se ater exclusivamente a esses parâmetros, e esquecer o Homem. É claro que a passagem ao ataque não livra os protagonistas do estágio da ignorância, mas reforça-o. Mas há uma assimetria no embate, provocada, de saída, pela carga semântica bem diferenciada que as palavras científico e humanista carregam. De fato, o embate ideológico é povoado por afirmações que carregam na diferença entre, por exemplo, o objetivo do científico e o subjetivo do humanismo. Ao primeiro concede-se, sem dúvida, certeza e exatidão, mas que nada valeriam, exatamente porque a busca fria, impessoal e calculada perderia o essencial, perderia o humano do Homem. Como ser contra? Dificílimo se, ao discurso, juntarmos frases famosas de gente famosa (o contexto, algures tão valorizado, aqui não importa): a medida do Homem é o Homem ou a raiz do Homem é o Homem. A Ciência e os cientistas perdem neste embate ideológico; eles se retraem, fogem ao debate e silenciam, no máximo concedendo um “eles não sabem o que fazem”. O importante na Psicanálise do clone é que se assume uma posição clara no embate ideológico descrito. É um texto acadêmico sim, mas que, distanciando-se da grande maioria das dissertações congêneres, é um texto também de combate. De combate acadêmico, tão pouco em moda. É um livro que vale a pena ler, mesmo que seja – uma pena! – para ficar do outro lado.
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