RAUL DIÁRIO DA AUSTRIA


Domingo , 05 de Fevereiro de 2012


A CAMISA DO SANTA CRUZ

 

Sou Assis também, mas não Valente, de modo que não vesti minha camisa listrada e saí por aí. Até que era listrada, mas bem mais, era do Santa Cruz. E não tinha simplesmente saído por aí. Era Domingo, João Pessoa na Paraíba, hospedado em um daqueles bons hotéis da beira mar da praia de Tambaú. No outro dia, na segunda bem cedinho, faria parte de uma comissão de seleção acadêmica na UFPb. Chegado ao hotel, tudo checado e bagagem organizada no quarto, não deu outra: vesti minha camisa do Santa Cruz e fui caminhar no calçadão. Ver o tempo passar.

Domingo é dia de alegria e, pelo menos no Recife e Grande Recife, é dia em que a cidade se ilumina com as três cores. Incondicionalmente! Sem essa de precisar estar assim ou assado. Qualquer série, não importa. E cantamos mesmo, silenciosamente, lá no fundo da alma, imitando o poeta popular: Vem, meu Santinha vadio, Vem, mas vem sem fantasia, Que da noite pro dia, Você não vai crescer.

Mas havia também um outro sentimento. Na véspera, em um jogo ganho até os minutos finais do segundo tempo, o empate foi cedido ao time adversário. O sentimento era o da solidariedade. Típico dos torcedores. O infortúnio, mais que a alegria, junta as pessoas. Mas não é apenas a solidariedade, é também aquele amor incondicional, feito o amor das mães. Que dizem: “ele é maconheiro, mas é meu filho”, “ele é isso mas é meu filho”, “ele é aquilo mas é meu filho”. Claro, o que é “isso” ou “aquilo”, cada um preenche como pode ou deseja. Eu não preencho, temo a N. S. do Rosário.

Volto da caminhada já para o almoço. Refestelado no restaurante feito um político federal. Mas logo chamado à atenção pelo garçon: “Doutor, o Sr. é um professor, o Sr. possui apenas essas três opções de carne, que podem ser acompanhadas apenas dessas quatro maneiras”. Não reclamei, sempre soube que não era um político, muito menos federal. Aprendi isso com a minha mãe.

Perto do final do almoço um senhor que já havia pago a sua conta dirige-se a mim. Viu a minha camisa do Santa Cruz. "Sou mineiro", disse ele, "mas torcemos todos, eu e o meu pessoal para que o Santa suba. Valeu amigo!". Olhei mais uma vez, agora bem mais orgulhoso, para a camisa do Santa Cruz.

 

Escrito por Fernando Raul Neto às 15h37
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Quinta-feira , 12 de Janeiro de 2012


 
 

Comunista

Comunista mesmo, só conheci um: o Michael Jackson. Esse comia criancinhas no café da manhã, no almoço e na janta.

Categoria: Frases
Escrito por Fernando Raul Neto às 18h44
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Facilidade

 

Diante da facilidade geral dá a impressão que as bolsas, as pequenas, bem entendido, usam velcro enquanto que as de antigamente, lembro bem, usavam cadarço.

 

Categoria: Frases
Escrito por Fernando Raul Neto às 18h36
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Terça-feira , 03 de Janeiro de 2012


 
 

A PRIORI

O pessoal as vezes diz nesses facebooks que eu gosto dos a priori. Não nego, mas dos lógicos. Mas o que eu gosto mesmo é dos a posteriori. Eles é que me corrigem. É por isso que eu me sinto moderno. Quando eu desejo saber se, agora, está chovendo lá fora, eu abro a janela e observo. Eu adoro aqueles que adormecem candidamente com seus dogmas. Serão acordados desse sono.

Categoria: Frases
Escrito por Fernando Raul Neto às 02h25
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O CALOR DO VINHO

Escrevo sob o calor do vinho

Que pensa que entorpece a mente

Mas apenas acalenta o corpo cansado

 

Escrevo sob o calor do vinho

Que traz as memórias esquecidas

 E elas lembradas vivem no meu presente

 

Escrevo sob o calor do vinho

Que ri da minha tristeza

Enquanto eu rio da sua bondade

 

Escrevo sob o calor do vinho

Que não entende de nada

Das coisas do coração

Categoria: Contos
Escrito por Fernando Raul Neto às 00h01
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Segunda-feira , 17 de Outubro de 2011


O SANTINHA ESTÁ VOLTANDO

A volta pede aquilo para o qual se volta. Há muitas voltas, mas voltamos bem quando voltamos para o que ficou porque ... .Não, não há porquê, volta-se simplesmente. As razões do não, por mais arrazoadas que sejam, perdem pela simples vontade de voltar. Talvez um “perdas e ganhos” efetivo, mas nunca explícito. Mas a volta boa é um conluio. E voltamos para a mulher, para o amigo, para a cidade, a escola, um livro, um filme, uma paixão, ...

O Santa Cruz, o Santinha, como carinhosamente é chamado, é algo assim etéreo, platônico, meio ideal, porque ele não é aquele zagueiro furão, nem o centro-avante desajeitado, nem o treinador teimoso e muito menos o dirigente trapalhão. Não é aquela antiga sede da avenida Beberibe que foi esquecida, bem ali em frente ao campo. O Santinha é mais aquele mau-humor que escutamos ali na esquina, ao ouvir a resposta a um inocente “tudo bem tricolor”: “eu não sou tricolor não, eu sou Santa Cruz”; é aquela camisa sempre bem guardada esperando a hora; é aquelas duas mil pessoas que em uma terça feira à tarde foram ao estádio olhar a grama sendo substituída e, saudosistas, lamentavam não poder ver o Lanzoninho jogar em uma grama daquela ou, rancorosos, torciam afirmativamente que a coisa iria derrapar o tempo todo naquele tapete. O Santinha é aquela alegria silenciosa dos finais de semana, ensolarados ou não, que tingem a cidade com as suas tres cores, nas ruas, nos pátios, feiras, supermercados.

E o Santinha está voltando. E é uma volta boa. A volta do conluio. E é uma volta gerúndia. O Santinha não voltou, ele está voltando. É um processo. Que vamos curtir em cada pedaço. Cada fase. E nos preparamos para a volta enfeitando-a como Dolores Duran fez em “A noite do meu bem”, mas sem aquela sua melancolia resignada de quem não acredita mais. Preferimos deixar o próprio Santinha cantar a sua volta. Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, como ninguém mais, entenderam a alegria da volta cantada por aquele que voltando para a mulher amada, e certo da volta, sabe do conluio. E volta para o abraço. Para o chegue batendo.

TÔ VOLTANDO
Pode ir armando o coreto / E preparando aquele feijão preto /Eu tô voltando

 

Põe meia dúzia de Brahma pra gelar / Muda a roupa de cama / Eu tô voltando

 

Leva o chinelo pra sala de jantar / Que é lá mesmo que a mala eu vou largar / Quero te abraçar / Pode se perfurmar / Porque eu tô voltando

 

Dá uma geral, faz um bom defumador / Encha a casa de flor / Que eu tô voltando

 

Pega uma praia aproveita tá calor / Vai pegando uma cor / Que eu tô voltando

 

Faz um cabelo bonito pra eu notar / Que eu só quero mesmo é despentear / Quero te agarrar / Pode se preparar / Porque eu tô voltando

 

Põe pra tocar na vitrola aquele som / Estréia uma camisola / Eu tô voltando

 

Dá folga pra empregada / Manda a criançada pra casa da vó / Que eu tô voltando

 

Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar / Telefone não deixa nem tocar / Quero la la iála la iá iá iá / Porque eu tô voltando

 

Escrito por Fernando Raul Neto às 01h14
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Sexta-feira , 14 de Outubro de 2011


O SEXO ANAL DA SANDY

Quem deveria enfrentar de frente, como diria algum dirigente corintiano, seria a Galisteu. Ela mesmo! Mas a Sandy – ela mesmo! – resolveu tomar a frente das vendas da edição de maio da revista Play Boy. Não propriamente de frente, mas de trás. Ela defende na revista, onde a colega exibia sem palavras as suas opiniões, que "é possível ter prazer anal" Meno male! E se fôsse obrigatório? Necessário? Um dever? Claro que Sandy não defenderia tais sandices (desculpem!), tanto é que ela afirma na mesma entrevista, que a  possibilidade de tal atividade a “faria pôr em prática suas (minhas) aulas de boxe”. “A santa Sandy, quem diria, gosta mesmo é do chumaço.”, isto deve ter sido repetido a exaustão no Brasil inteiro, e nessa hora ninguém de bom senso vai atrás da verdade. Disse ou não disse, verdade ou não, de frente ou de trás, vendeu ou não, discutiu-se bastante. Mas o interessante é a sua colega de frente na revista, a Galisteu. Ela declara: “Achei ótimo. Já estava na hora de ela se posicionar como mulher.” Galisteu, minha santa, pergunto eu, de quatro?

Escrito por Fernando Raul Neto às 22h12
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Wanessa, Rafinha e o humor

Wanessa, que nem precisa ser Camargo, está grávida. Rafinha, que pretende ser humorista, declara que faquearia ela e o bebe. Ninguém precisa de nenhuma "Central dos Bons Costumes" para exibir a sua indignação. E foi feita. Exibida. E entram ronaldos. inhos ou não, e bandes, e instaura-se a indignação. Justa? Despedido! Suspenso, apenas! Eu peço demissão! Vamos conversar! Dar um tempo! A notícia depois: a Wanessa, que nem precisa ser Camargo, exige 100 mil do Rafinha. De reparação, claro!. Será que ele, como se diz, chutará a bola levantada: pago somente se eu faquear ela e o bebe? Em público, claro!

Escrito por Fernando Raul Neto às 20h40
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Sexta-feira , 12 de Novembro de 2010


JOHANN WOLFGANG VON GOETHE

Naqueles tempos não havia ainda o citrato de sildenafila. Bem ali na esquina. Ao alcance dos velhinhos mais necessitados. Mas havia Goethe. O do Fausto e Werther. Mais aquele das Elegias Romanas. Ele teria escrito, resignadamente:

Gerne der Zeiten gedenk' ich, da alle Glieder gelenkig - bis auf eins. Doch die Zeiten sind vorüber, steif geworden alle Glieder - bis auf eins.

Lembro com satisfação dos tempos em que todos os membros dobravam – exceto um. Mas os tempos passaram, rígidos tornaram-se todos – exceto um.

Escrito por Fernando Raul Neto às 09h56
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Sexta-feira , 02 de Abril de 2010


 
 

Macho Alfa

Pensem bem, leitores alfas. A imagem serve como metáfora, mas vale mais uma imagem que mil palavras. Olhem bem a imagem. A responsabilidade é grande.

 

Categoria: Frases
Escrito por Fernando Raul Neto às 22h22
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Sexta-feira , 26 de Fevereiro de 2010


 
 

Quanta ladeira: que tal brincar o mesmo?

O carnaval do Recife (junto com o de Olinda) explode a cada ano, sempre, mas sempre com um complexo de inferioridade. E os sinais são as medidas oficiais extremas que oscilam, por um lado, com a proibição no nosso carnaval de músicas que não sejam nossas (leia-se: proibir as chamadas músicas baianas) e, pelo outro, com a profusa convocação de artistas brilhantes de fora para abrilhantar o nosso carnaval, suposto não brilhante. Luta e resignação inglórias. Os carnavais são diferentes, tem histórias diferentes, e podem ser comercialmente vendidos como diferentes. E o Recife brinca um carnaval, ele insiste com esse carnaval, todos os anos, diferente, que apenas necessita ser entendido. Para ser vendido como diferente.

Recife brinca o mesmo. Sempre. Os mesmos frevos, os mesmos frevos de bloco, os mesmos frevos canção. Os mesmos compositores e letristas. Ninguém faz isto no Brasil. Mas isto não é uma vantagem deles (não interessa quem sejam eles), porque eles mudaram para pior. Fazem carnaval com uma mesmice rítmica (melodia quase inexistente) e letras abaixo de qualquer crítica. O que eles não tem é um patrimonio musical carnavalesco que pela riquesa rítmica, melódica e lírica se oferece para pronta degustação e para inovações. As prontas degustações são, entre outros exemplos, os nossos frevos de bloco que pela saudade embelezam liricamente o carnaval para os jovens de hoje. As inovações, como sempre, são dependentes dos talentos dos artistas. Não dá, hoje, para ficar ouvindo monocordicamente “a barata na careca do vôvô”, com todos os circunflexos a desafiarem todas as reformas ortográficas e rítmicas, do mesmo jeito que no século passado. Mas é possível transformar algo do século passado, “Voltei Recife”, em um sucesso de hoje, para citar apenas um exemplo. O Recife sabe disso. E agradece.

O Recife brinca o mesmo. Pouco inova. Sempre brincou o mesmo, sempre desdenhando das globalizações globais. Uma das poucas inovações é o bloco “Quanta Ladeira”. Criado há treze anos sob, lê-se, a iniciativa dos artistas Lenine, Lula Queiroga, Silvério Pessoa e Júnio Barreto, agigantou-se a ponto de criar pane para os organizadores no último evento no Poço da Panela. Mas o Recife resiste com o mesmo, pois, perguntamos, o “Quanta Ladeira” é mesmo uma novidade? Não é, pois eles são também o mesmo na tradição carnavalesca recifense. De uma forma feliz eles ressuscitaram algo que havia morrido no nosso carnaval (e no resto do Brasil): a sátira política, cultural e dos costumes. Pena que façam isso com excesso de, como se diz?, expressões de baixo calão. Nada contra elas, mas temo pela arte preguiçosa. Gostaria de ver, descendo ou subindo a ladeira, e são muitas, Quantas?, as grandes vedetes de Barreto Junior: Anilza Leoni (Foi Ney Maranhão era o que significava o FNM dos caminhões?), Renata Fronzi, Carmem Verônica, Virgina Lane, etc, junto com, que tal?, os políticos sem paz, sem tal nem qual, claro!

Categoria: Crônicas
Escrito por Fernando Raul Neto às 09h59
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Terça-feira , 12 de Janeiro de 2010


 
 

El Shaday

A fé, mas não apenas ela, remove montanhas.  A ignorancia é forte também. Eu olho em volta e vejo o sucesso. Forte e bem sucedida em remover todas as montanhas. Minha luta é menos bem sucedida, pois luto exatamente contra o sucesso da ignorancia. Não posso ver um Presidente iletrado e já sou contra. Presidente de clube, claro! Mas minha luta maior, e não poderia ser diferente, é contra a minha própria ignorancia. Luta inglória, pois certo de que o mar da ignorancia é oceânico, resta admirar tudo de uma boa e estratégica ilha do saber. E aí entra o “El Shaday”. O que é isto meu Nosso Senhor Jesus Cristo? Valha-me Deus!

A curiosidade, que me chega agora, poderia ter chegado há muito mais tempo. Pois não me faltaram motivações nas placas “El Shaday” que vi em mercadinhos, em lojas de presentes, educandários, eletrônicas, óticas, pousadas, bancas de revistas, lanchonetes, letras de músicas populares, etc. Mas põe etcetera nisso, pois o nome “El Shaday” é onipresente. Mas apesar dessa onipresença, nunca me interessei pela palavra. A ignorancia parece que nunca incomoda.

Mas não resisti quando li “Motel El Shaday”. Aí decidi que tinha de descobrir o que significa o “El Shaday”. Pois os nomes são importantes. Se até então em padarias e serviços em geral o nome se misturava impunemente aos demais, agora a coisa era séria. Eu jamais entraria, por exemplo, como na piada do portugues falido, em um motel que se chamasse “Motel Nossa Senhora do Bom Parto”.

Mas qual seria a expectativa de quem entra em tal motel? O nome jamais levaria às regiões dos luizgonzagas. Talvez a lugares com tendas, sedas, danças, músicas chatas, ventres, incensos. Tudo misturado em uma única ignorancia: o que significa “El Shaday”? Expressão impronunciável! Comecei a brincar com a ignorancia. “El Shaday” é nome de gente, de coisa, de lugar ou é nome de que finalmente? Se é de gente tenho de me imaginar como um El Cid? Não, não! O “El Shaday” deve ser lá pelas arábias. Onde fica mesmo essas arábias? Nesse caso eu teria de ser o “Lawrence da Arábia”? Jamais, nunca jamais, como diria Onilda Figueiredo. Jamais entraria em um motel com aquela cara de abestalhado do Peter O’Toole. Decidi. Se é por aí que a palavra significa, então só entrarei em um motel com esse nome em um roteiro de Gloria Perez com a Jade sussurando “Inshalá dá certo”. E eu respondendo: El Shaday escuta tudo.

Categoria: Crônicas
Escrito por Fernando Raul Neto às 18h40
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Sexta-feira , 04 de Dezembro de 2009


 
 

Cacoetes acadêmicos

A língua é viva e vive da criatividade de seus usuários e do comercio saudável com outras línguas e culturas. O boquete que se transforma em ball cat e retorna como bola gato é um exemplo da dinâmica criativa da língua. A língua vive porque são criados neologismos que com o tempo ninguém lembra mais que um dia foram neologismos. Poetas, prosadores, jornalistas, filósofos e todos os usuários anônimos da língua são mestres em enriquecê-la.

Que fique claro então que nada tenho contra aqueles que algum dia resolveram em suas escritas, reinterpretar, ressignificar, repensar ou fornecer um olhar sobre o que quer que seja. E de forma alguma pretendo que eles sejam donos das palavras ou expressões que eles inventaram. As palavras são como as poesias que, o carteiro amigo de Neruda nos ensina, são de quem as necessita.

Mas chama à atenção a freqüência com a qual as quatro expressões acima são utilizadas no universo acadêmico das monografias, dissertações e teses. E não faltam assim reinterpretações da Bíblia, do Brasil, da Sinhá Moça, dos Ciclos de aprendizagem, da obra de Drummond, etc., etc., etc. E vejo também que é repensada e ressignificada a “Gestão Democrática da Educação na ‘Cultura Globalizada’” e coisas semelhantes. Mas esses cacoetes, que às vezes se fazem acompanhar de parênteses em suas (re)significações e (re)interpretações, são apenas truques sintáticos/semânticos para dar ao leitor desavisado a impressão de que o autor possui um grau maior de entendimento e compreensão de seu tema. Apenas uma boçalidade estilística. Nada disso seria problemático se eles não fossem fortemente utilizados exatamente pelas pessoas que tem dificuldades de compreensão e interpretação de seu material de leitura. São as mesmas pessoas que com dificuldades de ler as linhas, e confrontadas com seus erros, apelam para as entrelinhas que teriam também de ser lidas para o devido degustar da “tese” defendida. As entrelinhas são a versão preguiçosa do “contexto” que tudo explica.

Mas o ápice da boçalidade é o “Um olhar sobre...”. É irresistível. Até gente boa cai nessa. O leitor compare os dois títulos: “As dificuldades dos alunos da 6ª série com o conceito de número negativo” e “Um olhar sobre as dificuldades dos alunos da 6ª série com o conceito de número negativo”. Perceberam que o autor do segundo título aparenta um tamanho maior que o do primeiro? Isto é conseguido pelo ar blasé que o título lhe propicia. Se no primeiro título o autor anuncia honestamente o exame do seu tema, no segundo pretende-se não apenas que ele seja do conhecimento do autor, mas que seja apenas um entre vários outros que ele domina e que agora, como um falcão que sobrevoa todas as áreas do pensamento, ele dedicará o olhar superior e as garras teóricas que resolverão em definitivo o problema. De forma aborrecida, quase condescendente, própria do ar blasé.

“Um olhar sobre...” é a forma presunçosa de “fazer observações”. Um título como “Observações sobre as dificuldades dos alunos da 6ª série com o conceito de número negativo” seria mais honesto e revela um ato de humildade perante o tema em pauta. O autor anuncia que não vai abordá-lo enquanto pesquisa extensa e aprofundada, mas que pressupondo as pesquisas já feitas pretende chamar a atenção para alguns pontos oriundos dessas pesquisas. Na literatura filosófica alemã há vários autores que utilizam esse expediente das “observações”, das Bemerkungen” para distinguir os graus de desenvolvimento e profundidade de seus exames. É o caso de Ludwig Wittgenstein que tanto escreveu as suas “Observações sobre os Fundamentos da Matemática” (Bemerkungen über die Grundlagen der Mathematik”) quanto as suas “Investigações Filosóficas” (“Philosophischen Untersuchungen”).

À Universidade brasileira não basta atender a famosa advertencia de César, “À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”, mas entender que na investigação séria o importante é a direção inversa: Não basta parecer profunda e verdadeira, é preciso ser profunda e verdadeira.

Categoria: Crônicas
Escrito por Fernando Raul Neto às 12h29
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Segunda-feira , 09 de Novembro de 2009


"O Universo é Insosso" de Ivan Lessa

Não deixem de ler, é imperdível. Cliquem abaixo.

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,ivan-lessa-o-universo-e-insosso,463324,0.htm

Escrito por Fernando Raul Neto às 08h30
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A Uniban de Sponholz

Categoria: Frases
Escrito por Fernando Raul Neto às 07h08
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