Sou Assis também, mas não Valente, de modo que não vesti minha camisa listrada e saí por aí. Até que era listrada, mas bem mais, era do Santa Cruz. E não tinha simplesmente saído por aí. Era Domingo, João Pessoa na Paraíba, hospedado em um daqueles bons hotéis da beira mar da praia de Tambaú. No outro dia, na segunda bem cedinho, faria parte de uma comissão de seleção acadêmica na UFPb. Chegado ao hotel, tudo checado e bagagem organizada no quarto, não deu outra: vesti minha camisa do Santa Cruz e fui caminhar no calçadão. Ver o tempo passar.
Domingo é dia de alegria e, pelo menos no Recife e Grande Recife, é dia em que a cidade se ilumina com as três cores. Incondicionalmente! Sem essa de precisar estar assim ou assado. Qualquer série, não importa. E cantamos mesmo, silenciosamente, lá no fundo da alma, imitando o poeta popular: Vem, meu Santinha vadio, Vem, mas vem sem fantasia, Que da noite pro dia, Você não vai crescer.
Mas havia também um outro sentimento. Na véspera, em um jogo ganho até os minutos finais do segundo tempo, o empate foi cedido ao time adversário. O sentimento era o da solidariedade. Típico dos torcedores. O infortúnio, mais que a alegria, junta as pessoas. Mas não é apenas a solidariedade, é também aquele amor incondicional, feito o amor das mães. Que dizem: “ele é maconheiro, mas é meu filho”, “ele é isso mas é meu filho”, “ele é aquilo mas é meu filho”. Claro, o que é “isso” ou “aquilo”, cada um preenche como pode ou deseja. Eu não preencho, temo a N. S. do Rosário.
Volto da caminhada já para o almoço. Refestelado no restaurante feito um político federal. Mas logo chamado à atenção pelo garçon: “Doutor, o Sr. é um professor, o Sr. possui apenas essas três opções de carne, que podem ser acompanhadas apenas dessas quatro maneiras”. Não reclamei, sempre soube que não era um político, muito menos federal. Aprendi isso com a minha mãe.
Perto do final do almoço um senhor que já havia pago a sua conta dirige-se a mim. Viu a minha camisa do Santa Cruz. "Sou mineiro", disse ele, "mas torcemos todos, eu e o meu pessoal para que o Santa suba. Valeu amigo!". Olhei mais uma vez, agora bem mais orgulhoso, para a camisa do Santa Cruz.




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